terça-feira, 29 de outubro de 2013

Crônicas da Vida de Ilustrador

Então, mais um causo da divertida série "Vida de Ilustrador".

O ilustrador recebe um pedido de orçamento, de uma ótima agência, para retomar um projeto que já fizeram juntos para um cliente massivo. São mais algumas ilustrações na mesma linha, para um produto novo.

"Claro que sim", afinal, mantemos o traço, a identidade visual da coisa. E estou disponível, na medida do possível, para fazer umas 4 ou 5 ilustrações.

O ilustrador deveria cobrar, segundo o orçamento anterior, um preço equivalente mas com a correção blablablá, que daria X. Para ser "parceiro", ele vai e cobra um pouco menos que isso. A agência/cliente choram, e o ilustrador, entre o "perder o trabalho e o $" e "fazer, mas ganhar um pouco menos", opta por baixar o preço mais um pouco, tornando o valor por ilustração MENOR do que foi cobrado dois anos atrás. O que, convenhamos, é absurdo. Mas todos topam, e o trabalho é feito.

Feito, claro, num prazo curtíssimo, como sempre. Entendam, padawaans, que geralmente é assim: o prazo é curto, o dinheiro é pouco, e a exigência de qualidade é alta. Uma vez entregue o trabalho, há um vácuo enorme de informações e feedbacks. Pode passar um mês sem que você saiba se seu trabalho foi aprovado e se seu pagamento virá. Nesse tempo, claro, você evita começar novos projetos pois a qualquer momento eles podem voltar com alguma correção ou coisas do tipo.

Cumpre-se a profecia, passa-se mais de um mês, e quando finalmente cobro da agência um feedback, avisam que o cliente ainda não o deu, mas mesmo assim já vão encaminhar dados para emissão de nota fiscal. É, eu amito NF, malandrinhos. Tive que abrir uma empresa (MEI) para poder emitir umas 3 ou 4 notas por ano pra alguns clientes que a exigem. Me adequei.

(Não vou nem comentar que pode ou não ter havido uma pergunta sobre o meu orçamento "incluir BV", meses depois do orçamento ter sido feito; e que eu posso ter respondido que não, claro que não, nunca incluo - sempre ouvi dizer do quanto isso é sem propósito, afinal. Opa, comentei.)

As informações da NF são do cliente e não da agência. Passam mais semanas, projetos vão e vem, e de repente recebo ligações do cliente pedindo boleto, que eu não posso emitir. Então, serviria um comprovante de que a conta que informei é mesmo minha (!). E isso com a "ameaça" (aspas porque não foi em tom de de ameaça de forma alguma, a moça foi muito simpática, mas querendo ou não, é quase isso) de que se eu não mandasse até dia X, eu não receberia - e deu a entender que não receberia NUNCA MAIS. Resolvi o pepino.

No dia seguinte pela manhã, um email me informa de que o pagamento voltou pois o CNPJ parecia incorreto. Informo que a conta não é PJ, e sim PF. Então me avisam que não podem pagar uma PJ por conta de PF. "Mas eu nunca tive conta PJ, nunca informei que tinha. Sempre recebi corretamente por essa conta..."

Cai a ficha de duas coisas. 1) No último trabalho para esse cliente, a nota foi emitida para eles e o ilustrador heróis teve o mesmo problema, resolvido com dores de cabeça e complicações. 2) Talvez aquele BV que a agência queria era pra cuidar disso, emitindo eles a NF e me pagando depois. E o ilustrador pensa: POR QUE NINGUÉM ME PERGUNTA OU AVISA ANTES? Olha, eu sou um ser humano muito solícito e amigável, muito mais maleável do que o mundo e a maioria das pessoas chegam a merecer. E ainda assim, essas coisas acontecem.

A resolução está acontecendo enquanto escrevo.

Não citei nomes pois isso é enti-ético e espero que ninguém se ofenda com esse meu texto (eu sei que quase ninguém mais lê blogs, mas vai saber). A verdade é que, nesse mundo de freelances, o ilustrador, no caso, é sempre o que mais se ferra. Lida com prazos ridículos, é mal pago quase em todas as vezes, se desdobra para conseguir resolver tudo, visando o dinheiro que paga as contas (o mundo, que trabalha em horário comercial,  não te dá moleza só porque você é freelancer), e no final do processo, tem que esperar dois meses para receber, encarar esses pepinos de sempre, e depois ficar mais uma vez à deriva, até o próximo pedido de orçamento (desses, boa parte nem sequer dá resposta).

Mais um desabafo em forma de episódio das suntuosas Crônicas da Vida de Ilustrador. Até o próximo freela, padawaans! Não se rendam ao lado negro da Força.







3 comentários:

Stegun disse...

Marião, esse lance de receber PJ tem duas opções: abrir a conta PJ ou receber cheque administrativo. Eu também não tinha conta PJ até que um dia tive que buscar um cheque no fim do mundo. Ai eu abri uma conta PJ. DIca: no Banco do Brasil existe uma conta PJ para MEI que o custo mensal é R$ 5,00. Estou usando essa conta faz um tempo já e agora recebo via depósito e também posso emitir boleto se necessário. Só que o boleto tem um custo de se não me engano R$6,00 ou R$8,00. Enfim, peça cheque administrativo caso prefira não abrir a conta PJ. Um abraço.

DANILO A. BORGES disse...

Em que categoria de trabalho você ficou para trabalhar como ilustrador no MEI ?... sendo que no MEI não tem ilustrador propriamente dito.
Eu sou design formado e quero abrir uma empresa e uma das atividades e a de ilustração...

Silvia Cristiane disse...

Eu tenho a mesma pergunta do Danilo. Para ilustração qual categoria você colocou?