sexta-feira, 13 de junho de 2008

Tese da USP mostra que quadrinhos estimulam crianças a ler.

Matéria enviada pra mim pelo Amilcar, grande parceiro e chefinho da Pandora!
Retirada do Blog dos Quadrinhos, do Paulo Ramos.

Há um conjunto de rótulos pejorativos sobre os quadrinhos, a maioria herdada de décadas anteriores. Um deles bate na jocosa tecla de que "quadrinhos são coisa de criança".

Uma tese de doutorado da USP (Universidade de São Paulo) pôs a expressão à prova.

E mostrou que ela é verdadeira, sim. Mas não no sentido depreciativo.

A pesquisa chegou a basicamente duas conclusões: 1) quadrinhos estimulam as crianças a ler; 2) esse estímulo fomenta a migração para outras formas de leitura, como os livros.

A tese foi defendida -e aprovada- há pouco mais de um mês na ECA (Escola de Comunicações e Artes) da universidade.

A autoria é da paulistana Valéria Aparecida Bari, de 42 anos.

(É ético de minha parte registrar que integrei a banca de doutorado).

As conclusões foram possíveis por meio de entrevistas feitas com alunos da própria USP que tinham o hábito de ler quadrinhos. O levantamento foi feito entre 2001 e 2007.

A pesquisadora confrontou os resultados com a realidade observada na Espanha, onde fez parte do estudo.

O objetivo da viagem ao país europeu era perceber se a realidade brasileira é válida também em outro universo de leitores. Conclui que é.

E que a Espanha já desenvolve projetos de leitura com quadrinhos.

Nesta entrevista, feita por e-mail, Valéria Bari detalha um pouco mais sobre a tese, intitulada "O Potencial das Histórias em Quadrinhos na Formação de Leitores: Busca de um Contraponto entre os Panoramas Culturais Brasileiro e Europeu".

Para ela, a leitura de quadrinhos deve ser estimulada não só nas escolas, mas também pelos pais, dentro de casa, e nas bibliotecas públicas.

***

Blog - Por que, no seu entender, sempre circulou um discurso contrário à idéia de que quadrinhos estimulam a leitura?

Valéria Bari - Como a posse da informação sempre representou uma forma de poder socialmente constituído, naturalmente é desinteressante para os detentores dessa informação que ela transite livremente. Como a linguagem dos quadrinhos sempre foi representativa na leitura infantil e das camadas populares, sua validade cultural é questionada por aqueles que preferem privilegiar linguagens, discursos e obras inacessíveis.

Blog - Os pais, então, devem estimular a leitura dos quadrinhos?

Valéria - Se o interesse dos pais é a criação de filhos inteligentes e curiosos, que saberão buscar informações e conhecimentos com autonomia e competência, que terão habilidades para ler, escrever e se comunicar por meio de diversas outras linguagens, inclusive as digitais, é ótimo que disponibilizem histórias em quadrinhos para a leitura de seus filhos no lar. Permitam também que seus filhos pratiquem escambo com suas revistas em quadrinhos, para que conheçam outros amigos que gostam de ler e compartilhem o que estão aprendendo. Respeitem as coleções pessoais dos seus filhos, que são tão importantes para eles quanto os livros e papéis completamente insossos que nós adultos adoramos acumular e dar tanta importância. Uma criança adquire o gosto pela leitura em um ambiente no qual sua infância é respeitada, os seus gostos pessoais são respeitados e as atitudes dos adultos que o rodeiam denotem que a leitura é fonte de prazer e alegria.

Blog - O governo federal distribui quadrinhos às escolas do ensino fundamental desde 2006. Como você analisa esse programa [chamado PNBE, Programa Nacional Biblioteca na Escola]?

Valéria - O programa, assim como o elenco de políticas públicas que visam incentivar o gosto pela leitura e a formação do leitor, esbarra em uma limitação muito importante: a falta do acompanhamento do uso que o material disponibilizado recebe. Assim, as histórias em quadrinhos disponibilizadas recentemente aos estudantes, assim como outras amostras de leitura infanto-juvenil, não estão alcançando toda a sua potencialidade na formação do leitor. É necessário que as políticas públicas contemplem a formação dos professores, a inserção da leitura como atividade-fim nas grades curriculares, a formação natural de espaços de leitura dentro e fora dos espaços escolares.

Blog - Como os quadrinhos deveriam ser tratados pelo governo?

Valéria - Os quadrinhos deveriam ser tratados como um material bibliográfico relevante à formação dos leitores. Atualmente, as bibliotecas públicas estão desenvolvendo acervos de histórias em quadrinhos, pois esta nova forma de ver as histórias em quadrinhos já está ocorrendo. Porém, mais e mais crianças e jovens que são egressos de famílias completamente iletradas estão sendo escolarizados, o que significa que toda a sociedade tem de fazer esforços redobrados, para que a formação desses novos leitores não fique perdida pelo caminho. A mobilização da sociedade sobre a questão da leitura é essencial para o êxito da escolarização universalizada, e as histórias em quadrinhos certamente têm muito a contribuir para a evolução desse preocupante quadro social.

Blog - E qual o papel das bibliotecas – escolares ou não – nesse processo?

Valéria - As bibliotecas públicas e escolares, por sua proximidade social com os leitores novatos, também têm o papel de atuar no desenvolvimento do gosto pela leitura. Ocorre que, apesar da recente melhora na qualidade e quantidade dos acervos, este papel ainda não está sendo desempenhado como deveria. Para tal desempenho, é necessária uma mudança de mentalidade e uma disposição dos profissionais envolvidos em assumir esta nova responsabilidade.

Blog - Sua tese comparou a realidade brasileira com a espanhola? Quais as diferenças e o que há em comum?

Valéria - Para compreender melhor o problema da leitura no Brasil, fiz uma viagem de estudos à Espanha. Entre espanhóis e brasileiros, existem muitas coisas em comum, quando se trata do letramento e da formação do leitor. Em ambos os casos, a cultura das famílias não enfatizava a leitura doméstica até datas recentes, assim como o nível de escolarização era heterogêneo. A principal diferença entre os dois povos está na inovação rápida das políticas públicas e na mentalidade dos profissionais, no caso espanhol, que estão aplicando exemplarmente o potencial dos quadrinhos. Porém, o Brasil tem a possibilidade de difundir o gosto pela leitura por toda a sociedade, apesar das severas restrições orçamentárias, caso invista criteriosamente na formação de seus profissionais e na disponibilização de acervos estrategicamente desenvolvidos, sempre com a presença das histórias em quadrinhos.

Blog - Qual o papel dos quadrinhos na formação das pessoas?

Valéria - As necessidades individuais não se restringem à alimentação e o abrigo. O ser humano chega a um estado social de dignidade se lhe é dado o direito de sonhar, de se alegrar, de compartilhar suas experiências e fantasias com outras pessoas e ser compreendido. As histórias em quadrinhos estabelecem uma relação leitora que, além da natural carga de informação do texto escrito, investe muito no onírico, no sonho, de forma individual e social. Pela leveza e articulação da linguagem dos quadrinhos, a sua leitura é relaxante, mesmo quando os temas e enredos abordados são mais sérios e pertencem à temáticas adultas. A leitura em quadrinhos é naturalmente atrativa e, além de preparar o cérebro para apropriar toda a natureza de linguagens complexas, ajuda a enfatizar a imaginação e fomentar os sonhos, o que é importantíssimo para todas as pessoas, sejam crianças ou adultos.

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