terça-feira, 17 de abril de 2012

Sobre metas, barbas e tabelas.

Oi, pessoal!

Hoje, logo após acordar, enquanto lavava o rosto, pensei em escrever esse texto antes de ir pra prancheta e continuar a arte-final do Dom Casmurro. O que disparou o gatilho foi, acreditem, o tamanho da minha barba.

Eu explico.

Eu não faço a barba há 4 meses. Na verdade, sejamos justos. Eu não faço a barba 100% há pelo menos 8 ou 9 anos. Sempre teve uma barba rala, um cavanhaque. Salvo uma vez em 2008, quando fui numa festa à fantasia de Coringa (aquele, o palhaço, o bobo, o Jóker) que eu tirei toda a barba, e logo ela voltou. Só que eu mantinha a coisa toda com cuidado. Porém, no final do ano passado, mais especificamente durante o FIQ, pensei em deixar crescer. Sem dó. Consegui estabelecer isso assim que passou o Natal, última data do ano em que se passa com família e precisa estar bem apresentável.

E por qual motivo? Bom, eu defini que só ia fazer a barba de verdade quando terminasse toda a arte do Dom Casmurro.



Todo mundo com quem eu converso sobre isso vem com a mesma pergunta: "É promessa?" Ao que eu respondo, prontamente, "Não".

É preciso explicar, eu acho, que eu tenho às vezes uns problemas com certas palavras. A sonoridade delas, ou mesmo a interpretação que elas trazem, não funcionam com o que eu quero dizer. Meus amigos e alunos já sabem da minha teoria sobre a diferença entre "trabalho", "serviço" e "trampo". Nesse caso da barba, é a diferença entre "promessa" e "meta". O que eu fiz foi estabelecer uma META para mim mesmo, para meu trabalho.

Quando você faz uma promessa, geralmente mistura com seu objetivo um tanto de religião. A sensação que eu tenho é que vira algo como "pedir a Deus que faça acontecer algo que você quer, enquanto você abre mão de alguma coisa que goste, ou que faça falta, como um tipo de sacrifício, em troca de ter seu pedido atendido". Nada contra. Acho que o Chefe está aí pra muita gente e que se ele é bom como dizem, ele ajuda quem merece, de alguma forma. Agora, é muito fácil, eu acho, essa troca, essa confiança em algo maior que você para resolver alguma coisa. Muita gente faz a promessa, por exemplo, para de beber por X tempo, e fica "esperando" que "seu desejo se realize". (Eu sei que nem todo mundo tem essa postura e não quero debater religião aqui, por favor). É fácil demais assim.

Agora, a META é diferente. Você estabelece pra SI MESMO onde quer chegar, como quer chegar, e estabelece que até chegar lá, você vai deixar de fazer algo. Nesse caso me parece que a responsabilidade fica só com você mesmo, o que é muito mais do que muita gente consegue. Quando se trabalha sozinho, na prancheta, que fica num quarto da sua própria casa (ou às vezes, do lado da cama, da TV, da geladeira...), é muito difícil  estabelecer uma disciplina decente de trabalho. As distrações são grandes e constantes. A tentação de ver Game of Thrones no sofá comendo chocolate é grande.



E é aí que você vê quem consegue ter a disciplina, e vê o quanto isso é importante, o quanto isso te faz evoluir como artista - e isso fica nítido no seu trabalho - e como profissional - que fica nítido nas suas relações e atitudes.

Agora, enquanto numa promessa geralmente se abre mão de algo em troca de um "favor" do Chefe, numa meta você abre mão de algo que só o seu trabalho e dedicação podem "trazer de volta". É bem satisfatório.

Aliás, veja bem, quando você promete algo a alguém, só existem dois resultados possíveis: cumprir a promessa ou falhar. Ou você ganha ou você perde. Simples assim. Prometeu não cortar o cabelo por 1 ano? Se você cortar, você perdeu, não importa o quanto você aguentou, o quanto foi difícil ou o que o mundo fez pra conspirar contra.

Uma meta é um objetivo. Você mira, direciona e vai em frente. Cada passo dado é uma vitória particular, saboreada. Por não haver necessidade, muitas vezes, de estabelecer um prazo, você pode se perder nas distrações, mas isso deveria dar uma maleabilidade para o que você quer fazer. É só se manter fiel e voltar a ele depois, e guardar aquela abstenção pro final, onde ela vai funcionar como uma recompensa de verdade.

Se você não consegue alcançar sua meta, não é um problema tão grande. Não é vencer ou perder. Você só perde se não fizer absolutamente nada a respeito. Se você não alcançou a meta, olhe pra trás e veja o quanto você caminhou, o trajeto feito até onde você conseguiu chegar é composto das suas vitórias particulares, como eu disse, cada passo te leva mais perto do objetivo. Chegar até onde chegou já é uma vitória por si só, e você pode se sentir um tanto satisfeito porque você tentou chegar lá, fez seu melhor e apesar de não chegar lá, chegou perto. Você só vence, desde que se mexa e trabalhe por isso.

Para deixar isso evidente pra mim mesmo, fiz uma tabela com as páginas da graphic novel inteira, mais os extras. Ou seja, tudo que precisava ser desenhado. Essa tabela conta com (na ordem, esquerda pra direita)
Número da Página - Layout - Diagramação - Lápis - Arte-final - Scan.



Cada etapa completada ganhava uma marca vermelha, e isso me fazia "ver" de uma forma mais direta, que sim, eu estava caminhando, as coisas estavam acontecendo e eu estava uma marca mais perto de completar o meu trabalho.

Como nosso trabalho às vezes é caótico (eu sei que o meu é, mas é um texto que fica pra próxima), às vezes com vários projetos ao mesmo tempo, é essencial que você tenha um sistema de disciplina, um sistema de divisão de atenção, e um sistema decente de recompensas.

Se você quer fazer Quadrinhos mas é desorganizado, não sabe bem onde quer chegar, e tem uma certa preguiça que te impede de desenhar mesmo quando você não tá muito inspirado... Sinto dizer, mas você vai ter muita dificuldade.

Eu sei que insisto demais no termo "disciplina" em relação a um trabalho que deveria ser mais diversão, certo? Bom, sem disciplina as coisas ficam num âmbito de "quando der eu faço", e isso não leva ninguém a lugar algum.  Eu estabeleço minhas metas, e faço meu melhor pra cumpri-las.

Então, a minha meta foi a barba.

Sejamos justos, também. Eu aparo a parte de cima da boca no bigode pra poder comer como um ser humano normal. Eu aparo a lateral da barba, nas bochechas, pra ficar mais evidente ainda o queixo e as costeletas, essas sim, intocadas desde Dezembro de 2011. Causo comoção em certas pessoas, espanto em outras, e meu pai quer muito mesmo que eu tire logo essa barba bizarra, ahahaha. Tenho que explicar pra quase todo mundo o "por quê" disso.

E sabe, eu gostei do visual. Capaz que eu volte a deixar crescer no futuro.


Auto-retrato, circa favereiro 2012.


Durante o fim de semana, na tarde de sábado, enquanto José Dias morria em nanquim na minha prancheta, percebi que faltavam 12 páginas pra terminar tudo. Pensei, "cara, em uma semana eu consigo". E é isso que eu estou fazendo essa semana. Foco total no Dom Casmurro. Ontem, foram 4 páginas. Agora, faltam 8. Hoje, com certeza, pelo menos 3.

Estou postando algumas imagens e comentários, sempre com a hashtag #DomCasmurro. Procurem pelo Twitter e Facebook.

E até sexta eu terei terminado tudo (com sorte, até termino a arte da capa!). Vou pra QuantaCon no sábado, e quem for, terá a última chance de conferir essa meta maluca barbuda que eu estabeleci. Segunda que vem a barba já era.

E aí, vou cumprir uma promessa que fiz aos meus amigos do Quarto Mundo, durante o FIQ ano passado, e ficarei só de bigode. Aguardem.

Meta estabelecida, conclusão próxima.





2 comentários:

Sidnei Akiyoshi disse...

Oi!!!

Mario, Mario... gosto de barbas. Comparo elas à maquiagem que as mulheres usam. Pois todo homem tem que cuidar todo dia, seja raspando ou deixando crescer. Mas nesse caso específico seu, vejo quase como uma imersão em seu trabalho, uma imersão nos personagens do século XIX. Pois tá bem parecido. Quanto a disciplina, homens de barba tendem a aparentar mais respeitabilidade e confiança que cumprirão suas palavras, pelo menos aparentemente. rs rs. Bom fim de HQ, e sem casmurrices...

Sidnei

Digo disse...

Eu imaginei que assim como o Sidnei seria uma forma de você se sentir mais Dom Casmurro do que com a barba mais curta...
Mas enfim, o papo sobre "Meta e Promessa" foi muito legal, acho que precisava de um sermãozinho desse pra acordar pra algumas coisas que vão se arrastando.
Que venha essa grande obra de Axe of Assis adaptado a HQ!