terça-feira, 21 de maio de 2013

Mergulho e mantra

Venho percebendo cada vez mais que prefiro me dedicar a projetos de longo fôlego do que a múltiplos projetos curtos. Ou mesmo projetos longos, mas picados em fôlegos curtos.

Imagine que cada trabalho é um processo, com começo, meio e fim. Esse processo, quando tem foco dividido com outras coisas, acaba se diluindo e perdendo o ritmo.

E lá vem minhas analogias de novo:

Vejo o desenho como uma experiência rica, de imersão em uma linguagem não-falada, não-escrita. É quase como nadar. E meditar, ao mesmo tempo. Exige uma entrada, onde o artista se prepara, e mergulha. às vezes, mergulha de cabeça, às vezes, entra aos poucos, se acostumando com a temperatura da água.

Mas o fato é que, uma vez lá dentro, é preciso continuar nadando, senão você afunda. Essa coisa de manter o movimento, manter o foco naquela atividade, pode chegar ao ponto de virar um tipo de mantra, um tipo de meditação. Tudo se perde em volta, tudo perde o significado e resta apensas o desenhar.

Às vezes, minha respiração desacelera, e perco a noção do tempo totalmente. E sabe de uma coisa? Eu amo quando isso acontece. É aí que, de fato, sinto que estou desenhando com todo meu potencial... Não só a construção de uma figura, não é só o método ou a técnica: é transcender tudo isso, é não pensar muito e deixar a coisa fluir. É achar um ritmo e deixar-se levar por ele e levá-lo ao mesmo tempo.

Ritmo é muito importante para mim e pro meu processo de trabalho. Por isso ouço muita música. Às vezes, insisto na "música errada" pro momento ou pra determinado trabalho. Hoje em dia ouço coisas que não me imaginaria ouvindo há 10 anos atrás, mas é interessante perceber que várias músicas que me cativam são aquelas que são um clima quase narrativo. Certas músicas são como mantras, com ritmos repetidos e riffs em looping.

Isso pode acabar gerando no artista uma certa rotina, mas eu vejo segurança nessa rotina. Não gosto muito do caos infinito de não saber o que vem depois, de não saber no que focar. Quero foco, quero ritmo, quero meditar sobre meu trabalho enquanto vejo as imagens se formando na minha frente, sobre o papel, saídas do meu pincel e lápis.

Eu sempre repito com certo saudosismo dos meses que dediquei somente ao Dom Casmurro, no começo de 2012. Como o edital do ProAC possibilitou um foco maior no livro, parei com todos os freelances, com vários clientes, e desenhava, quase somente o Casmurro, todo dia, com uma disciplina absurda. No meio da semana, parava para fazer a página de Terapia e para dar aulas. E só. Queria terminar toda a arte do livro pois no mês de maio começaria a trabalhar pesado em Equipe Evoke (outro trabalho que rendeu muito foco e disciplina, mas de forma muito mais tensa. Depois eu falo disso) e não queria misturar as coisas.

A vida de freelancer é complicada demais, e ter dias da semana com horários totalmente diferentes entre si não ajuda muito. Pode ser que hoje você queira muito mergulhar no desenho e se perder naquele oceano todo, mas às X horas tem compromisso, ou é um dia cheio de aulas, ou até mesmo aparece um freela urgente que tomará todo seu tempo.

Não sou contra as aulas, nem contra os freelas. Preciso deles pois, como devem saber, as HQs não me rendem dinheiro algum. Mas é um certo incômodo quando, ao estabelecer um bom ritmo de trabalho (coisa que não vem fácil, acreditem... e olha que eu sou workaholic total), de repente acabo sendo "forçado" a sair dele para focar noutras coisas.

Isso tudo é necessário. Há que se treinar o desapego nisso também. Se eu fosse focar somente em produzir HQs todo santo dia, eu poderia acabar aparecendo com mais histórias diferentes, inúmeros projetos de vários temas. Talvez eu fosse muito feliz fazendo isso. Mas é inviável. Pelo menos, por enquanto.

Agora deixe-me voltar à prancheta. Preciso achar meu mantra de hoje, preciso conseguir mergulhar e nadar, mesmo que a água esteja fria ou meu fôlego esteja fraco.

Desenhar é preciso.


Um comentário:

carjes disse...

Seu texto é perfeito e retrata exatamente o que sinto.

Meus parabéns.