quinta-feira, 13 de março de 2008

Discurso dos oradores - Formatura

Discurso do orador – Mario Cau e Mariana Soares

Intro:

- Boa noite. Meu nome é Mario

- E o meu, Mariana. Nasci no dia 11 de outubro de 1984.

- Eu também. Fiz minha prova de aptidão para o curso de Artes Plásticas em dezembro de 2003.

- E eu, no mesmo dia, numa mesa próxima à janela.

- Que por sinal era a mesma mesa em que eu me encontrava.

- Estamos aqui, agora, juntos novamente com todas essas coincidências para fechar mais um ciclo: o de nossa graduação.

- Creio que discurso algum estaria à altura do que realmente sentimos e queríamos expor aqui hoje. Expressamos-nos melhor visualmente, mas vamos dar uma chance às palavras...

Antes mesmo de entrarmos numa Universidade nós nos deparamos com uma ficha de inscrição para o vestibular, marcamos a arte como opção, sem mesmo saber o que estaria por vir, uma escolha determinante. Creio muitas pessoas ficaram intrigadas com nossa escolha.

Para muitos passar no vestibular não foi nada fácil, para outros, apenas uma conseqüência ou acaso, mas é inegável que viver uma vida universitária é uma experiência única, aprendemos a buscar coisas que alimentem não apenas nossos corpos, mas também nosso espírito. Compreendemos que o pensamento é essencial.

A maioria entra muito novo na universidade, não sabe lavar, cozinhar, cuidar da casa e nem dele mesmo, mas por outro lado é alguém quer compreender as coisas, desfraldar. A vida universitária é se colocar num espaço em movimento, transformação. Isso inclui: encontrar pessoas, conviver com a diferença, aprender a temperar a comida, tirar a sujeira do ralo, lavar a louça que o outro deixou, perceber no outro algo nunca visto, olhar para o próprio trabalho e se encontrar, a maioria dos jovens saem de suas casas e ficam dias ou meses longe dos familiares, muitos descobrem o que é passar mal de tanto beber e quem é o amigo de verdade, pois tem a paciência de te levar até o hospital, encontramos afinidades nos outros e por isso montamos grupos de estudos e escrevemos projetos, alguns assumiram gerar uma vida, outros encontraram um amor, enfim muitos outros momentos que eu não poderia descrever, já que cada um viveu sua história. Não seria exagero nenhum dizer que, embora haja divergências, e cada um tenha trilhado seu caminho, todos estamos unidos por um fato, nosso convívio através do curso.

Alguns de nós não tinham idéia do que é ser artista. E ser artista não é só uma profissão ou um rótulo. É explorar linguagens, estilos e técnicas. É um jeito peculiar de ser. É uma maldição e uma bênção. Poucos entendem ou conseguem explicar a solidão melancólica, a poesia e a experiência fantástica que é ser artista – e se tornar um artista.

Aprendemos o conceito de caminho como o próprio desenvolver do artista, sua evolução e seu aprendizado. Alguns chegaram aqui com focos bem definidos. Outros chegaram totalmente perdidos, sem saber o que aconteceria. É verdade que todos viemos com grandes expectativas. Não encontramos tudo que esperávamos, mas o que vivemos foi muito melhor.

Nesse caminho que trilhamos aqui, sempre andamos juntos, apesar de seguirmos trilhas distintas. Somos um conjunto de solitários, e a vivência do curso nos rendeu aprendizados inesquecíveis.

Aprendemos que o educador sempre deve problematizar e que na área da educação tudo tem um ranço. Ensinar o que aprendemos é tão importante quanto desenvolvermos aquilo que um dia alguém nos ensinou.

Ser artista é um jeito de ver o mundo, mas nem sempre foi assim, quando nascemos não estávamos preparados para luz, nossa visão era embaçada e demorou um tempo para enxergarmos os objetos de maneira focada. Levamos tempo para encontrar e conquistar nossos objetivos. Temos que aceitar que certas coisas são questão de tempo e não de desejo. Desenvolvemos nosso olhar ao longo do curso e mesmo assim é difícil saber se estamos completamente formados, se chegamos ao fim.

Somos um conjunto de solitários, e a vivência do curso nos rendeu aprendizados inesquecíveis.

Aprendemos o valor do silêncio, da reflexão. Aprendemos a pensar em nós, sobre nós, e a nos entendermos. Aprendemos a experimentar, a poesia do gesto, a carga emocional e criativa contida num traço ou numa pincelada. Aprendemos a valorizar e entender uns aos outros e a seus trabalhos, e mais importante, aprendemos a respeitá-los, mesmo com tanta diversidade. Somos ímpares, mas aprendemos nesse tempo a sermos amigos. Em certos casos, irmãos.

Agora temos um diploma em nossas mãos e o que fazer? Pendurá-lo na parede? Botar na gaveta? Procurar um emprego?

Recebemos uma formação humana e temos plena consciência de que escolhemos uma área de trabalho pouco reconhecida, pois a arte muitas vezes não é vista como uma necessidade pelo fato de não ter uma utilidade prática. Mas se imaginarmos supostamente que um dia todo e qualquer tipo de arte fosse banida da terra, mesmo assim em algum momento ou circunstância ela tornaria a surgir, em algum momento o ser humano sentiria necessidade de se expressar da maneira mais livre possível, por isso eu creio que a arte está no campo do inevitável, enquanto a humanidade existir haverá alguém produzindo arte.

O que fomos, o que somos e o que seremos está, a partir de hoje, indissociável do que passamos, juntos, nesses anos de convívio e aprendizado no IA. E não trocaria isso por nada. Creio que minha resposta seja compartilhada pelos meus colegas formandos, e espero, pelos nossos mestres.

Sou grato por ter conhecido todos vocês. Vocês fizeram parte do meu caminho, e, por conseguinte, parte de quem eu sou. Como já diria Keith Richards, numa música dos Rolling Stones, “esse lugar é vazio sem vocês”. Ou melhor dizendo, sem suas cores, tudo isso teria sido uma grande tela em branco.

O caminho, meus amigos e agora colegas de profissão, continua. Existe uma trilha a ser seguida, e por mais que às vezes paremos e sentemos à beira da estrada, em algum momento teremos que levantar e continuar andando.

Faço um apelo a seus espíritos criativos: não fiquem parados. Ficar parado não é uma opção. Que todos nós continuemos a caminhar, a aprender, a ensinar, sem nunca perder essa energia, essa força poderosa que nos move. Que nunca paremos de viver.

Um comentário:

Mariana Guerra disse...

Sem dúvida, esse texto fico MUITO melhor do que o da minha formatura! Eu queria ter ido! Mas eu sei que vou ser reconpensada!

Dá pra tirar muita lição dele!

Beijos