sexta-feira, 2 de março de 2012

207 páginas (ou A Disciplina e os Resultados)

207 páginas.
Esse é o número de páginas de Quadrinhos que eu desenhei para Dom Casmurro.

Terminei o lápis todo dessa grande graphic novel essa semana, mais especificamente dia , às 16h35.Foi um momento especial de verdade. Quem conhece a saga do Casmurro, desde meu envolvimento, até o prêmio do ProAc, até a vindoura conclusão, sabe o quanto eu me dedico e o que esse trabalho significa para mim.

Ainda vou falar muito dele, espero, então quero deixar esse texto focado não na obra em si, mas no fazer.

Esse mês de fevereiro foi similar ao mesmo mês do ano passado. Em 2011, num grande momento de inspiração, dedicação e disciplina, arte-finalizei cerca de 47 páginas. Fiz isso em, acredito, uns 25 dias. Para quem faz Quadrinhos, sabe que a arte-final costuma levar mais tempo e ser mais exigente do artista... É verdade. Por mais que você tenha um trabalho primoroso e detalhista de lápis, a arte-final vai demorar o mesmo tempo ou mais.

Foi uma vitória pessoal concluir um capítulo inteiro em um mês... Até fiz um post animado aqui, lembra? http://mariocau.blogspot.com/2011/03/round-3-you-win.html

Consegui mostrar, para mim mesmo e para qualquer outro, que a disciplina é essencial na produção de qualquer trabalho, ainda mais o artístico. A facilidade da distração, da desvontade, dos outros projetos, é tão grande e tão tentadora... Você não pode simplesmente desenhar quando der, quando tiver vontade. Você tem que desenhar o tempo todo. Acordar cedo, tomar seu café, ler as notícias se for o caso, e sentar na prancheta e desenhar. Só parar quando for hora de almoçar. Descansar um pouco e voltar, desenhar até o fim da tarde. E aí sim, você pára e descansa.

Era interessante ver o quanto meus momentos de lazer eram mais valiosos depois de um dia inteiro focado na produção de algo que eu amo. Ir ao cinema, sair com amigos, ver seriados ou ver bobeiras na internet ganham um sabor diferente, depois que você tem a "hora de trabalhar" e a "hora de descansar". Antes, eu costumava perder muito o foco, não ter horários e não ter prioridades grandes de um trabalho para outro.

Não vou dizer que eu mudei. Infelizmente, eu diria, depois dessa grande maratona, outros trabalho vieram, trabalhos que pagavam (o Dom Casmurro esteve sem editora, garantias ou dinheiro desde o começo de 2990 até ganhar o ProAc) e que ganhavam prioridade automática. Eu fiz MUITA coisa durante 2010 e 2011. Algumas, como a Nanquim Descartável 4, me consumiram um tempão, exigiram a mesma disciplina de trabalho. Esse monte de coisas me impedia de me dedicar somente ao Dom Casmurro.

Acho que, no fim, isso foi bom. Logo quero escrever aqui sobre a diferença que fez no trabalho como um todo ter levado esse tempo todo pra produzir. Mas não agora.

Eu fiquei um bom tempo apaixonado pela ideia de poder somente me dedicar às HQs. A tentação de contar histórias, as minhas e as que acredito serem boas mesmo, e só isso. A satisfação prazerosa de terminar o dia com páginas feitas. De marcar com uma manchinha vermelha na lista de páginas as que eu terminei.

Claro que, como eu disse, os trabalhos pagos voltam sempre à tona, e ser freelancer significa não ter garantias nem coisas fixas. Todo novo trabalho de ilustração pago me atraía pelo fato de poder pagar as contas. Todos sabem como é isso. Ainda sou sortudo de verdade por ser ilustrador e professor, e isso trazer meu sustento, pois boa parte do mundo leva uma vida inteira trabalhando em algo que não é sua paixão e mal tem oportunidade de curtir a respectiva paixão no tempo livre.

Sou feliz por não ser um zumbi, ou um robô.

Mas às vezes me senti assim, mesmo trabalhando com o que gosto.

A vida sempre vai trazer desvios, sempre vai te dar problemas pra resolver. Se você quer ser um artista, um profissional de verdade, e ser respeitado no seu meio, você precisa de DISCIPLINA, mais do que estilo, materiais, diplomas. De nada adianta desenhar super bem se você não desenhar todo dia e não fizer algo com seu desenho e não sair eventualmente pra conhecer seus colegas e seu mercado.

Como já disse a "ice queen" Jan Levinson, "Existe sempre um milhão de motivos para NÃO se fazer algo." (e eu ganho uns 5 level ups por citar The Office, ãhn?).

Você tem que achar os seus motivos pra FAZER as coisas.

Fiz o lápis e a arte-final do capítulo 4 durante o resto do ano, em momentos separados, mas sempre em grandes levas. Não fazia uma página por semana. Fazia umas 10, e aí parava um tempo pra cuidar de outras coisas. E essa coisa de desenhar várias páginas em sequência ajuda a manter a linha, o foco, o feeling do momento. Eu sempre preferi desenhar, de uma vez, em sequência, as páginas de uma mesma cena, de um mesmo momento da história. Te mantém focado naquele instante.

Quando me deparei com o fim do ano vindo a 1000 km/h, estabeleci uma meta de que terminaria a arte-final do capítulo 4 ANTES do fim do ano. Se desse, antes até do Natal. E consegui! Toda a arte-final pronta antes do Reveillon. E por quê? Porque eu queria terminar meu ano com uma sensação de complitude, de missão cumprida, deixando o espaço aberto para que, no novo ano, eu pudesse começar algo novo.

Esse algo novo seria o Capítulo 5.

A minha ideia inicial era: Bom, o ano começa, eu começo a desenhar e logo menos eu tenho o capítulo 5 pronto. É preciso correr, sem dó, pois o prazo está acabando e eu não vou desonrar isso. É claro que distrações múltiplas apareceram. Confesso que eu mesmo, internamente, não estava 100% ok para tudo isso, e acabei me perdendo um pouco durante janeiro. As aulas voltaram, Terapia continuava, Equipe Evoke sendo produzido e com seus próprios prazos, e por aí vai.

Voltei a sentir uma energia muito boa para o Dom Casmurro de novo em fevereiro desse ano, e foi aí que decidi,então, voltar à prancheta. E, em momentos de quase transe, eu desenhei cerca de 50 páginas em 28 dias. Minha rotina era de total dedicação. Já tinha avisado meus clientes (as agências) que, de novembro de 2011 até sei lá quando em 2012 eu não faria mais freelas. Nada poderia tomar meu tempo até eu finalizar essa graphic novel.

Sem a pressão e as frustrações vindas dos freelas, com Terapia ganhando uma pequena pausa, e o Evoke também um pouco mais lento, dediquei toda minha energia ao Dom Casmurro. Acabava o dia de trabalho com 5, 6 páginas a lápis, um traço que considero maduro, perfeito pro final dessa saga. Percebi meu desenho evoluindo a cada linha, como se conseguisse reinventar certos processos e certas regrinhas de desenho enquanto fazia.

O meu lápis oscila. Às vezes é bem detalhado, bem limpo e deixa na página exatamente o que a arte-final deve repetir. Às vezes, é solto, rápido, expressivo e deixa boa parte da decisão de detalhes e efeitos para a etapa do nanquim. Eu prefiro essa segunda opção. É no lápis mais solto e dinâmico que eu encontro o melhor movimento, a melhor fluidez, as melhores expressões.

E percebia nitidamente meu aprendizado, minha evolução. Foi fantástico.

E de novo, me enamoro com a ideia de produzir HQs, mais e melhores. Tenho roteiros prontos que precisam ser reescritos, tenho ideias que precisam ser postas no papel, tenho parcerias que quero concretizar. Meu desejo é que eu possa ter, o ano inteiro, esse mesmo tipo de dedicação e disciplina que tive em alguns meses desses dois últimos anos. E, com a mesma dedicação e disciplina, eu farei exatamente isso.

Ainda faltam as páginas do capítulo 5 para arte-finalizar. São umas 45, 50 páginas.Eu sei que num bom dia de trabalho, eu consigo pelo menos 4 arte-finais. Isso me dá um prazo de cerca de um mês para terminar. E eu vou conseguir.

Até porque existe uma meta estabelecida, um jogo pessoal meu, que eu pretendo cumprir e vencer sem grandes dramas.

Galera, fazer HQ é simplesmente bom demais. Eu amo o que faço, e quero ter a chance de produzir muito mais.

Esse ano reserva muita coisa boa ainda. e está só começando.




3 comentários:

Éder disse...

Parabéns!

Trabalhando na minha hq eu também percebi que o principal elemento da produção era a DISCIPLINA.

ótimo texto!

Laís Bicudo disse...

Poucas pessoas reconhecem o trampo que da fazer arte-final.
"Você é o que? Arte finalista? aaaaa aquela pessoa que coloca um preto no desenho" Hahahaha o importante é realmente gostar do que faz e pelo post você deve ser metódico igual a mim. Eu gosto sabe, deixa o trabalho muito mais organizado e profissional.

Keep Rocking \m/

Tati Pandora disse...

Parabéns Mário.
Pelo trabalho, pela disciplina, pelo crescimento.
Parabéns mesmo!
Tati Pandora