terça-feira, 1 de maio de 2018

Opinião - O fim da Gibiteria

A Gibiteria, uma das lojas de quadrinhos mais charmosa, vai fechar. Já rolou uma promoção de descontos para liquidar o estoque, comemoração em presença de vários autores, jornalistas, leitores.. Infelizmente, não pude ir. Mas fica aquela dorzinha no coração de saber que essa loja, que foi capitaneada pelo Sr. Otávio, um grande cara, e sua filha Aninha e também o Guilherme, É, pessoal, isso é muito triste. Como não só leitor, mas autor de quadrinhos, sinto muita tristeza de ver uma das maiores e melhores lojas de HQs fechando assim, "de repente". 

Claro que existem todos os problemas que tantos outros já citaram... É uma época muito estranha em vários sentidos. Economia, educação, cultura, interesses, preconceitos, inércia, etc. Temos grandes eventos e interesse maior na produção de quadrinhos, e também uma produção incrível e efervescente... e, mesmo assim, a Gibteria fechou. 

Por não morar em São Paulo, era sempre difícil ir até lá. Mas sempre que tive o prazer de ir, era muito bem atendido. Você podia pedir indicações, opiniões, debater os temas e nerdices, a níveis superficiais e profundos. Dava pra sair de lá e ir comer alguma coisa por perto, tomar uma cerveja com amigo, curtir a vida toda que tinha lá na praça Benedito Calixto, especialmente quando tinha a feirinha... Para mim, era sempre um evento ir lá. Era delicioso, mesmo se fosse só pra bater papo. Sempre teve muito carinho e paixão na Gibiteria.

E esse carinho e essa paixão abria portas para os autores, de todos os estilos e níveis. Tive o privilégio de ter meus títulos lá, disponíveis, mas mais ainda, de ter feito eventos de autógrafos, lançamentos e debates. Encontrar os leitores já amigos, e conhecer mais gente nova que foi lá pela curiosidade e acabou conhecendo meu trabalho por acaso... Apesar da rede social,da internet e toda essa (aparente e potencialmente inútil) divulgação que ela proporciona, a loja era o lugar no mundo real onde as coisas aconteciam. 

Você pode, inclusive, ir lá até dia 5 de maio e aproveitar os descontos de bota-fora.

Muito foi falado sobre esse fechamento da Gibiteria. Tem texto do Ramon Vitral (Vitralizado), do Carlos Neto (Papo Zine), do Gabriel Bá, e de muitos outros profissionais da área. É uma perda real, pro mercado e de nível emocional, também. Todo mundo está falando sobre, mas gostaria de reforçar algumas considerações.

Fala-se que a onde de filmes, seriados, video games e etc baseados em HQs aumenta a procura por elas e, portanto, alimenta as lojas. Não é porque os filmes baseados em quadrinhos levam muita gente aos cinemas que isso reflete no interesse por ler quadrinhos. Na maioria das vezes, esses filmes são baseados em grandes franquias com décadas de história e pro leitor comprar só um encadernado e ainda conseguir se divertir é raro. Quem é leitor de quadrinhos como eu fui (comprava vários títulos mensais, corria atrás de edições antigas e lia as notícias sobre) sabe que a cada ano que passa é mais difícil acompanhar os personagens sem precisar se envolver com mega-sagas. 
Envolve gasto, envolve ler muito, envolve se envolver e a maioria das pessoas só quer mesmo se divertir com filmão.

Produzem poucos filmes baseados em quadrinhos menores, o que atrai menos leitores pra esses quadrinhos (que são geralmente bem mais interessantes do que os mainstreams)

(Ainda sobre cinema, no fundo, acho que a bilheteria está caindo assim como os leitores, mas como a escala ainda é muito grande, não dá pra comparar. Só sei que os cinemas devem estar sentindo isso ao longo dos anos.)

Sobre quadrinhos, nós temos experienciado uma das melhores fases de produção de quadrinhos no Brasil. Sei que não vivi as outras épocas como autor, e cada época tem suas particularidade de mercado, economia e cultura, mas hoje, como autor e leitor, eu vejo uma multiplicidade de temas, estilos, propostas, edições... É muito rico. Mas produz-se muito e consome-se pouco. Muito da nossa produção é consumida pelos próprios autores. Sempre penso que, num país imenso e cheio de gente como o nosso, ser difícil esgotar uma tiragem de 1000 exemplares em 5 anos é ridículo. Ridículo. Essa tiragem deveria acabar em um semestre. Mas enfim, várias coisas a se considerar sobre isso. 

O meu ponto é que assim como música, cinema, literatura, tem quadrinhos pra todo e qualquer público. Mas essas HQs raramente estão na banca. A maioria se encontra em eventos, e mesmo em lojas online, mas isso depende de um envolvimento maior dos leitores e do leitor em potencial, que não quer nem sair do site/app do Facebook pra ler um texto num blog, que dirá sair de casa pra ir num evento ou fuçar a internet em busca de autores com obras que lhe interessem. Isso acontece, como sempre, só com os leitores realmente engajados, e eles, apesar de serem essenciais pro nosso trabalho, ainda são poucos. 

Se esses leitores, mesmo engajados, não vão às lojas de quadrinhos... o que será da loja?

As lojas de quadrinhos, em vários casos (não todas! E também não cito nomes porque desconheço as razões pelas quais essas situações acontecem), têm uma relação confusa com os autores: querem o material para venda. Mas na maioria das vezes, esse material fica em prateleiras sem que os vendedores as indiquem ou trabalhem qualquer marketing em cima dos títulos. Ficam à deriva para que algum leitor, na sorte, os encontrem e gostem e comprem. E como sabemos, a maioria dos leitores vai às lojas e acaba se interessando pelo que tem mais marketing em cima, ou pelo que ele já tinha em mente quando foi lá.

Mesmo quando os vendedores são empolgados, conhecem tudo e indicam, ainda assim o movimento não deve ser tão grande a ponto de tornar o negócio sustentável e lucrativo. Como o Gabriel Bá disse no texto dele sobre a Gibiteria, é uma coisa que é muito mais pela paixão do que pelo lucro (e coloca aí, mas sem expandir essa parte, que funciona do mesmo jeito pros autores, querendo ou não).

Só que mais que isso: as lojas na maioria não paga os autores. Nem adiantado com desconto, nem depois pela consignação. Costumam levar anos pra fazer acertos pequenos, o controle de estoque é confuso, e o autor tem que cobrar essas coisas, assim como relatórios de venda, sendo que isso deveria ser função e responsabilidade da loja. Muitas vezes, só recebi meus acertos por ter ido atrás e cobrado,ficando naquela situação chata (eu pelo menos me sinto super encabulado de cobrar as pessoas das coisas que elas deveriam fazer).

Vários amigos e colegas meus, autores e editores, têm a mesma opinião. Alguns desistiram de ter os títulos em lojas e vendem só pela internet e em eventos. Acho que a ideia é, "já que é pra ter quase todo o trabalho, pelo menos fazendo por conta eu recebo mais e em menos tempo". É certo que livrarias também estão nessa toada. É só pesquisar sobre os calotes e dívidas das grandes redes com as editoras: ninguém escapa.

É complicado, pois precisamos desses pontos de venda, mas a relação é, em quase todas as vezes, complicada e dá uma desanimada... 

Não quero deixar esse texto só com reclamações, mas achei interessante colocar esses temas pra discussão. Se você acompanha meu Blog já sabe que eu escrevo pouco aqui, geralmente divulgo eventos e lançamentos. Quero mudar isso, e começar a ter mais conteúdo relevante para autores, especialmente para os novos autores que precisam de orientação, conhecer mais do mercado e ter uma visão de quem está vivendo a coisa toda há tanto tempo. E, para isso, é preciso acompanhar oque acontece e ter uma visão ampla e crítica. 

Fazer quadrinhos é maravilhoso e não vejo minha vida sem isso. Por isso, cada derrota, por mais que pequena, nos afeta: leitores, autores, jornalistas, editores e também, claro, os lojistas. Nosso mercado é frágil, pequeno demais, e precisamos lutar para manter esse pouco que temos vivo para que possa, com esperança, crescer e se fortalecer.

Conto (contamos, todos nós) com você também, para isso. Se você curte quadrinhos,seja como leitor ou autor, mergulhe de cabeça. Frequente as lojas. Se não tiver lojas perto de você, tente comprar com os autores, com lojas de quadrinhos menores que mandem pelo correio. Eu sei que os preços que a Amazon pratica são muito convidativos, mas é complicada demais essa mudança de paradigmas e valores que eles estão impondo. E isso n]ao é pelo bem da cultura, é apenas financeiro, e prejudica demais os autores e editoras, não prejudicando els próprios, a Amazon. Enfim, isso é combustível pra outro texto, mais pra frente.

Se você leu até aqui, agradeço demais ela atenção e carinho. Não deixem de comentar, compartilhar, acompanhar. Nos vemos por aí. 

E obrigado, Gibiteria! <3 div="">




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