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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Newsletter 121 - Estrelas Cadentes

 Este post é pra te avisar que saiu mais uma edição da minha newsletter, a Quebra-Cabeça! Clique AQUI ou na imagem abaixo para conhecer e assinar e fique por dentro de todos os meus projetos!




PITTSBURGH - Dinossauros, Pop Art e Quadrinhos

Estivemos em Pittsburgh, Pensilvânia, neste último fim de semana. A Monica teve uma jornada de formação dos leitores Guimarães Rosa e participamos do 20º Brazil Day, organizado pelo clube Brazil Nuts, da University of Pittsburgh. Enquanto a Monica estava lá, eu fui bater perna e conhecer a cidade.

Como sempre, busco lojas especializadas em quadrinhos que pareçam interessadas em material como o meu. Dessa vez, eu tive o privilégio de...


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segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

Os Muitos Fins de 2022 - Newsletter

 Oi, pessoal! Hoje compartilho com vocês a edição de número 50 da minha Newsletter, a Quebra-Cabeça. É um marco e um texto muito importante, então gostaria de deixar aberto para todos lerem.

Se você gosta dos meus textos e quer ficar por dentro do meu trabalho e reflexões, assine a Quebra-Cabeça aqui. 

Oi! Tudo bem por aí? Chegou mais uma peça do quebra-cabeça! Esta é a edição de número 50 da Newsletter!!! É uma comemoração justa porque pode ser a última do ano. E olha que esse ano tá quase no fim e ainda guarda os maiores eventos.
Eita, faz um tempo que não nos falamos, né? Peço desculpas pelo sumiço, mas você anda me acompanhando nos últimos tempos e já sabe como a vida está doida. Tem coisas demais acontecendo com o grande objetivo de me mudar para os EUA daqui... uma semana? Aimeudeus!
Realmente, as últimas semanas foram cheias e essa não está sendo diferente. Vou comentar um pouco a seguir.

         Os Muitos Fins de 2022         


O ano está se encaminhando para o fim. Todo fim de ano eu fico meio melancólico, especialmente no Natal e no Ano Novo. Não deixo de me divertir e celebrar com os meus, claro, mas tem essa coisinha agridoce que sempre me pega. Dessa vez, vou passar as festas longe de todo mundo que amo. Menos de uma pessoa, a que amo mais, a Monica. Acho uma troca meio que justa, visto que nosso ano foi super complicado e estamos há três meses sem conviver ao vivo. 

O fim do ano, no entanto, só acontece depois de um começo. O começo da jornada do casal pinguim, agora juntos, nessa experiência de morar fora. Mas, antes desse começo, ainda tem alguns fins. Você vê, não é obrigatório que algo termine para outra coisa começar, mas tem certos casos que é necessário. Eu só posso morar fora se deixar de morar aqui, por exemplo. E muitas coisas não vão terminar de verdade, apenas vão mudar em diferentes escalas. Há quem acredite que toda mudança é uma pequena morte e, por morte, podemos pensar também em fim. E é de fins e começos que se constroem vidas.

Os fins de 2022 foram muitos. Eu estou falando em "fim" mais por uma questão de efeito dramático do que de sinalizar um término definitivo. Até porque, como disse, nem tudo termina definitivamente. Mas vou continuar a usar o "fim" como demarcação para essas transições importantes que, juntas, somam-se em vazios: espaços abertos para crescer.

Pensando primeiro na Monica. 2022 trouxe o fim do Estágio Probatório e a consequente efetivação como professora da rede municipal de Campinas. Poucos meses depois, também trouxe o fim desse cargo, com a exoneração que foi a última saída para poder ir para os EUA fazer o leitorado. Não foi por falta de tentar achar uma alternativa, até parece que a Prefeitura não queria ajudar (e não quis mesmo). Com o fim desse emprego com o Ensino Fundamental, ela abriu portas para ingressar em uma Universidade, que era o plano desde sempre. 

Outro fim super importante dela foi o do doutorado. Esse grande e importante projeto, que ocupou 7 anos e muitas vezes bagunçou corações e mentes, foi concluído com tanto êxito que ela nem acreditava, achou que era mentira. A conclusão da tese e a defesa só aconteceram em junho porque se não fosse assim, ela iria para o Leitorado com isso ainda em aberto e demorando mais 2 anos (ou mais) para concluir, e com a vida andando pra frente, distanciava-se mais e mais da tese, tornando mais difícil voltar à pesquisa e, por consequência, defender. O doutorado da Monica terminou e abriu portas para ir além, agora ditando muito mais as direções.

Agora, pensando em mim... Vários fins. 

Em 2022, eu fiz mais uma vez a cirurgia do adenoma na hipófise, esse tumor babaca que me estragou um pouco o olho esquerdo mas não me derrotou. A cirurgia devia ter sido feita em 2020, mas a pandemia aconteceu. Esse ano, finalmente, resolvemos isso e agora eu estou seguro (se não para sempre, pelo menos por um bom tempo). A conclusão dessa questão, que também foi agendada para acontecer antes da Mo viajar, encerrou minha preocupação com o adenoma e abriu espaço para que minha visão, tanto a biológica quanto a mental, pudesse novamente se ampliar. Já estava cansado de ver o mundo por uma janela estreita. 

Na série de fins, teve também a minha saída da Pandora Escola de Arte. Falei sobre isso anteriormente nas cartas, tudo foi muito bem planejado e refletido por mim. Um término desses não é fácil: é como terminar um casamento. Não importa como está a relação no momento, tem uma história imensa por trás, cheia de nuances e afetos. Minha saída foi super amigável, e talvez eu dê mais drama a ela do que de fato houve com eles, mas eu senti como se fosse o fim de uma era mesmo. Abrir mão desse emprego foi como soltar algumas amarras do balão pra poder voar mais alto, coisa que eu queria poder fazer e por um tempo achei que não ia conseguir. O fim da minha parceria com a Pandora abriu espaços que foram preenchidos com meus projetos e novas experiências didáticas.

Terapia também acabou. A HQ, de fato, tinha terminado sua história em 2018, mas como nosso objetivo sempre foi publicar o segundo livro, não terminaria de fato até isso acontecer. E foram muitos tempos complicados, com proximidade e distância do projeto, até que o universo deu uma ajudazinha e conseguimos colocar o projeto no ar, financiar (ainda que apertado) e lançar o livro. Publicar esse livro foi uma série de vitórias para mim. Como artista é fácil dizer, até porque digo sem medo que Terapia é um dos - se não o - melhores trabalhos que já ilustrei. Mas além disso, Terapia foi engrandecedor para mim como roteirista, editor e gerente de projeto. Terapia não acaba aqui porque eu adoraria que no futuro essa história alcançasse mais pessoas, mas qualquer desenvolvimento vindouro só será possível por termos publicado o livro. A conclusão da saga de Terapia abre espaço para novos projetos, novas ideias e novas evoluções da minha arte.

Teve outro fim importante que rolou mais no ano passado, mas queria mencionar aqui também porque até hoje estou colhendo bons frutos. Depois de mais de 15 anos da série Pieces, fiz uma campanha maravilhosa no Catarse e publiquei Parte de Mim, um livro que é a retrospectiva da minha carreira com a série que me apresentou pro mundo dos quadrinhos brasileiros, que me definiu como autor e artista e que me ajudou a lidar com a vida numa época deliciosa e complicada. Esse livro traz histórias antigas que nunca tinham sido devidamente publicadas e ainda outras novinhas e é um fechamento de ciclo muito especial. Quem leu sabe que tudo começa com um coração partido e falta de rumo... E termina com a compreensão de que nunca somos incompletos se honrarmos nossos pedaços quebrados como parte da nossa jornada.

Os eventos voltaram com tudo esse ano, e a reta final foi bem intensa. O pessoal de quadrinhos deve ter esse consenso de que nosso trabalho vai ganhando momento ao longo do ano para que o último deles seja a apoteose épica prometida. Das grandes experiências, tivemos o FIQ, que foi maravilhoso, a Butantã Gibicon que teve um retorno triunfal e foi como um FIQ em São Paulo e, aí sim, a CCXP, com tudo aquilo. Foram 5 dias intensos e muito satisfatórios. Ainda que eu ache que as vendas dos dois últimos não atingiram a expectativa, os anteriores foram todo acima. Fiquei muito feliz e grato por poder participar desses grandes eventos do ano, porque não sei se ano que vem poderei voltar para eles. A conclusão da série épica dos eventos de 2022 vai acontecer neste domingo com o CAF em Campinas, que por ser mil vezes mais leve que a CCXP, vai ser como um after-party com os amigos. O fim dos eventos desse ano abre espaço para pensar nos eventos do ano que vem... nos EUA.

Um outro "fim" que gerou um lindo começo foi o nascimento do meu sobrinho Pedro Augusto. O fim da gestação acontece simultaneamente ao começo dessa vida fora do útero, nesse mundão muito doido, que ficou mais bonito por causa da chegada do Pedrinho. Ontem eu recebi a visita do meu irmão Lucas, minha cunhada Bia e do Pedrinho e passamos momentos gostosos demais conversando, comendo pizza e nos divertindo do quanto o Pedrinho amou o caranguejo doidão que dei de presente pra ele. O Lucas começou essa madrugada a peregrinação para Aparecida, onde ele chegará no mesmo dia que eu viajo. Dois irmãos em jornadas muito significativas que mudam nossas vidas. E para o Pedrinho, o tio diz que esse mundo é complicado mas eu vou fazer tudo que eu puder para torná-lo melhor pra você.

Tem os fins e tem algumas continuidades. E tem outros começos. Hoje mesmo terminei a última commission do ano e estou fazendo um teste para algo que, se der certo, vai ser bem legal. Tem algumas coisas meio que pré-combinadas, que não dependem só de mim mas que, rolando, serão legais demais. 2023 com certeza vai trazer coisas bem legais, e vou contando para você sempre que puder. 

Posso estar esquecendo de alguma coisa... Mas o texto já está bem grande. Fins e começos têm tamanhos e pesos bem variados e a vida é esse fluxo constante de coisas acontecendo. Todo dia é uma nova oportunidade para começar coisas bacanas. E terminar outras.

O fim desse ano será de celebração e transição para uma experiência muito especial. Eu estou empolgado, mas zen. De vez em quando, ansioso e sei que vou ficar mais. As despedidas são e serão estranhas, porque eu vou pra longe e por um tempo, mas não tão longe por causa da internet e não pra sempre. É algo no meio que a gente só vai saber como será quando acontecer. E estou trabalhando internamente para lidar com tudo isso, e, sinceramente, acho que estou conseguindo manter tudo sob controle. Amadurecer é isso, também.

Estou olhando pro calendário que colei na porta do armário e pensando em tudo que ainda tem que ser feito e resolvido e no fundo eu só queria paz para criar coisas bacanas e descobrir esse novo volume da minha jornada. Tem uma parte de mim que pensa nesses fins e começos como oportunidades para "zerar a numeração" e "começar de novo" com novas energias. E, como acontece com os super heróis que têm sua continuidade zerada pelas editoras, por mais que se recomece, a essência dos personagens está sempre lá, porque é o que mais importa e o que os conecta com o mundo. 

Estamos prestes a começar uma nova fase. Estou empolgado pelo que vem pela frente. Novos projetos, novas ideias, novos desafios. O mesmo coração e carinho. Você vem junto?

 

Feliz Tudo!

 

Se não nos falarmos até o fim do ano, já deixo aqui meu desejo de um Feliz Natal, uma virada de ano maravilhosa e um 2023 repleto de coisa boa. Todos temos nosso sonhos e desafios, e espero que você se mantenha apaixonado para encarar tudo isso! 

RODAPÉ
 
Bom, apesar de desenhar aqui e ali, não ando fazendo muita coisa pra mim mesmo. É claro que com tudo que tem acontecido, fica difícil tirar umas horas para brincar com canetas, pincéis e papéis...

Então na carta de hoje não tem desenho, nem vídeo novo. Tem só gratidão.

Obrigado por me acompanhar por esse ano todo! Nos vemos em breve!

sábado, 12 de fevereiro de 2022

Sobre minha saída da Pandora Escola de Arte

Texto originalmente publicado na Newsletter Quebra-Cabeça (assine!) 

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Nada dura para sempre, a não ser que o seu "pra sempre" seja maleável como a percepção do tempo desassociada de ponteiros e marcadores digitais. Diria o poeta "que seja eterno enquanto dure" e isso é lindo, e quando é real, significa que independente de finais, o durante foi construído com dedicação e carinho. Também tem o clássico "o que importa é a jornada, não o destino", e também gosto dessa, mesmo se pensar que o fim sempre é o fim. Por fim, o fim também tem essa característica de morte, todo término é uma pequena (ou grande) morte de uma coisa que, espera-se, tenha sido especial. Esse conceito da psicologia também foi usado na HQ Terapia, veja só, e faz muito sentido. O fim nunca é o fim, até ser o fim definitivo, e esse teria que ser o fim de tudo, tudo mesmo, do ar que respira, da luz do olhar, da continuidade da existência física, e mesmo esse ponto final não pode existir, porque algo continua existindo: memória, legado, obras, influências. Vai até que se chegue num ponto onde não se remete mais ao que ficou de alguém, mas olha, até isso é inverdade: se fica algum tipo de presença, eventualmente ela se mescla a outras coisas e continua em frente.


É, eu sei que esse parágrafo todo tem uma interpretação possível um pouco sombria, fala-se de fim, de término, de morte, mas nada disso aconteceu de forma tão intensa ou definitiva. O que não quer dizer que não houve um fim, mas foi desses que não terminam em corte brusco perpétuo (como disse, isso é até meio impossível). É só mudança. E mudança, geralmente, é bom (eu não gosto de mudanças grandes ou bruscas, mas no final a gente acaba entendendo e fluindo com isso).

Bom, todo esse preâmbulo para falar sobre minha saída da Pandora Escola de Arte. 



Eu sou dramático, gosto de escrever coisas poéticas, melancólicas e que possam instigar qualquer reflexão, qualquer uma que seja, e aí a mensagem pode acabar com esse caráter mais tenso e denso, mais do que precisava, hehe. Mas não resisti. Quando comecei a pensar sobre o assunto, me vieram à mente essas formas de pensar em fins e saiu o texto. Agora que acabou o drama (será que algum dia ele acaba?), vamos falar das coisas.

Hoje, primeiro de fevereiro de 2022, é o primeiro dia em que eu oficialmente não sou mais professor da Pandora Escola de Artes. A Pandora, que fica em Campinas, onde eu moro há metade da minha vida, é uma escola muito bacana que tem uma longa história de formação de artistas na região. Fundada pelo Ricardo e pelo Amilcar, oferece cursos em diversas áreas das artes e artes aplicadas e participa da vida cultural da cidade e região ativamente. 

Conheci a Pandora antes de ser escola, quando ainda era "só" uma comic shop, cheia de HQs diferentes, camisetas e colecionáveis, quando ouvi na rádio, no ônibus indo pra escola em 1998, que ia inaugurar. Entendi errado o endereço e foi uma dificuldade encontrar o lugar certo, mas finalmente conheci a loja em algum momento depois de uma aula de desenho em Campinas.

Uns anos depois, vim morar em Campinas e passei a frequentar semanalmente a Pandora pra comprar meus quadrinhos. Já era uma escola, também. Meu primeiro trabalho de verdade com quadrinhos tinha como parceiro um dos professores da escola na época, o Bruno Bull. Eu ia lá levar páginas para ele continuar o projeto. Depois, já mais inserido no mercado de ilustração, conheci o Ricardo pela lista de email de ilustradores da época, a Ilustrasite, e a partir da ideia de criar eventos regionais para ilustradores, eu, ele e a Aline Bottcher organizamos o Sandubão Ilustrado, que rolou em 2006 ou 2007. Contatos feitos, não demorou para que eu fosse convidado pelo Ricks a dar aulas na Pandora.

Pra mim, foi uma honra. E já fazia meus quadrinhos há anos, tinha começado a publicar em antologias (Front) e a conhecer o mundo da HQ independente e autoral. Estudava quadrinhos como a arte incrível que são e encarava o olho torto acadêmico sobre essa linguagem na faculdade. Ser convidado pra dar aulas na Pandora era um tipo de validação, afinal era a escola mais importante desse tipo na cidade. Claro que topei. Comecei a dar aulas de Desenho Artístico, Ilustração e, claro, Quadrinhos em 2007. 

Nesse tempo, evoluí absurdamente como professor, artista e autor. Não tem como não evoluir se você está realmente dedicado ao que faz, buscando melhorar em todos os aspectos. Pra mim, dar aula é uma coisa muito especial e desenvolvi, ao longo desses anos, uma relação muito bacana com meus alunos. Não é só ensinar fundamentos de desenho, técnicas, truques. A minha própria vivência como autor e ilustrador atuante torna essa experiência maior, porque sempre levei pra aula essa vivência. Dos eventos, das publicações e todo o processo criativo delas, as exposições, tudo sempre fez parte da experiência expandida da aula. Meu estilo de aula mistura o que tem que ser visto do programa do curso com reflexões diversas sobre tudo.

Os conteúdos se misturam a visão de mundo, analogias e metáforas, filosofadas e piadinhas. E isso, eu sei, era importante e valioso para muitos alunos, porque a gente pode trabalhar não só habilidades técnicas e artísticas, mas também o interior do artista, com acolhimento, respeito e seriedade. Eu não tenho formação em psicologia, claro, mas acabei me tornando o "professor terapeuta filósofo" da escola, e com isso vários alunos eram direcionados para minhas aulas. A experiência foi muito especial para mim. Saber que eu pude ser relevante não só para ajudar as pessoas a serem melhores artistas e profissionais, mas também a se entenderem, respeitar o próprio lance, compreender melhor o mundo maior que a arte propicia. Não tem preço.

E nesses 14 anos, ajudei a formar uma série de artistas. Eu nem consigo contar, tenho medo de esquecer de alguém, mas vale dizer que tem muita gente boa produzindo quadrinhos, ilustração animação, tatuagem, design, que foram meus alunos. Na última CCXP presencial (2019), contei uns 8 autor@s no Artista Alley que tinham sido meus alunos. Que orgulho, bicho. Fora os alunos que visitaram o evento dedicando um tempo enorme aos autores e seus trabalhos (pra mim é assim: gosta de quadrinhos, estuda quadrinhos, tem que conhecer quadrinho brasileiro!). 

Aí, veio a pandemia e mexeu em muita coisa. A Pandora teve que fechar as portas por um tempo, e esse tempo foi muito mais longo do que todo mundo esperava (muito obrigado, governo, seus lixos). As aulas passaram a ser online. Começamos esses atendimentos pelo Slack, mas era só texto e imagem, não tinha vídeo nem voz. Chegou um momento em que decidi dar as aulas pelo Meet, pra poder ver e ouvir meus alunos e também compartilhar a tela e dar aula numa lousa em tmepo real. Foi ótimo, apesar de não ser a mesma coisa que a aula na sala de aula, mas me ofereceu uumas possibilidades maravilhosas em termos de didática, porque eu podia usar os softwares e suas camadas e efeitos. Tirar o melhor proveito possível do que temos à mão. Sai a lousa de vidro com marcadores e eventuais impressões em laser de referência, entra o photoshop, o clip studio, os links, camadas e sobreposições, etc. Investi no meu set up (que não era só pra escola, claro, era pra todo meu trabalho): cadeira, microfone, webcam, SSD, ring light, tablet nova. Tudo pra subir o nível do que eu poderia oferecer nas aulas, no canal e no meu trabalho offline.

A gente aguentou o tranco. Aí, no meio de 2020, com todas as dificuldades já regentes, vem a bomba: a Pandora precisou entregar a casa onde era sediada, a casa antiga de vó, super gostosa, que ficava a 2 quadras da minha casa, porque o lugar foi vendido pra uma construtora. Que caos. Eu não participei do movimento de desmontar tudo. Outro dia passei lá na frente e já não tem mais casa, só detrito. Foi triste. Ficamos naquela casa desde 2009. Mas, como todo fim pode levar a algo novo e muito bom, a Pandora encontrou nova sede numa casa super moderna e bem localizada. Só era muito longe da minha casa. 

Quando as aulas presenciais voltaram, no começo de 2021, eu decidi não voltar ao presencial. Foi uma decisão minha por causa da falta de vacina e a insegurança que a pandemia coloca na gente. Vai saber até quando a tranquilidade dura. E durou pouco, a escola fechou de novo, levou meses pra reabrir, e eu não voltei de novo. Nesse tempo todo, estava esperando estar imunizado com a segunda dose da vacina, antes disso não voltaria. Quando tomei a segunda dose era quase novembro. E novembro logo vira dezembro, o ano acaba e as aulas param no recesso, então decidi não voltar até 2021. Tudo de acordo com a escola e os alunos, muitos preferiam ficar online mesmo. Mas era cada vez menos alunos nas aulas.

No final de 2021, depois de muito, mas muito pensar no assunto, chegou ao fim minha parceria com a Pandora. Tomar essas decisões não é fácil pra mim. Eu tenho a tendência de continuar como está, torcendo e colaborando pra que as coisas melhorem, mas nem sempre as coisas mudam. Eu já aprendi há tempos com relacionamentos e emprego que pras coisas mudarem, é preciso agir, e a ação tem que vir dos dois lados. Nem sempre dá pra fazer, porque as coisas são como elas são. Talvez em algum momento isso signifique que é melhor não continuar juntos, e acho que foi isso que aconteceu. Durante a pandemia eu pude me recolher em mim, pensar muito mais no que eu quero e como eu quero fazer as coisas. Novas possibilidades apareceram (mentorias, aulas particulares, freelas e projetos de HQ). Refleti muito sobre todas as minhas relações durante esse tempo, e só consegui fazer isso porque estive isolado em casa por muitos meses. E me fez bem. Uma dessas reflexões foi justamente se eu queria mesmo continuar como professor da Pandora. 

E eu percebi que, como as coisas eram antes da pandemia, não estava 100% do meu agrado, e percebi que não era só eu, de forma egoísta, mas uma percepção honesta do que poderia acontecer, mudar, evoluir. Mas estávamos conversando, haviam planos e ideias o tempo todo. A pandemia colocou tudo em stand by. E aí depois de tanta mudança, a reflexão passou a ser, já que o que existia não existiria mais (mudou a casa, mudou a equipe, mudou o local, mudei eu), será que eu quero continuar como professor da Pandora nesse novo modelo?

A conclusão foi até mais fácil do que eu previa, tentando ficar isento de emoções (a amizade, a lealdade e o respeito por todos sempre ficou presente nas minhas reflexões sobre isso, falo mais das emoções minhas, síndrome do impostor, medo de fracasso, de ser interpretado mal). Minhas conclusões foram as seguintes:

A Pandora, que antes ficava do lado de casa, agora está mais longe. Pra chegar lá e dar as aulas, preciso ir de carro. Só que o carro é usado pela Monica pra ela ir dar aula, num lugar mais longe ainda e num horário fixo todo dia da semana. Pra eu ficar com o caro, teria que levá-la até sua escola e voltar e depois ir buscar, o que interfere no horário das minhas aulas. Exige que organizemos o cronograma de almoço e tal. Se eu for de ônibus, leva muito tempo e fico à mercê dos horários. Se for de Uber, sai caro e eu teria que arcar com esse custo. A pé, não rola. Então esse problema logístico já atrapalhava tudo. Tudo bem, eu dou aula um dia da semana, mas se eu quisesse abrir mais turmas? Ou, como eu queria, mudar os horários e dias das aulas?

Com a pandemia, a escola perdeu muitos alunos. A procura por curso online é baixíssima na escola, o que significa que se eu tive poucos novos alunos. Com a saída de alguns deles, minhas turmas ficaram pequenas. Menos alunos significa também menos dindim, e o tempo dedicado às aulas vale muito a pena se tenho salas cheias, mas nem tanto se tenho um ou dois alunos (vira praticamente uma mentoria ou aula particular, sendo pago como aula normal). 

E eu mesmo fui ficando desanimado do formato virtual, de estar sempre na mesma sala com o mesmo PC, mas respeitando minhas decisões sobre a pandemia, era isso ou voltar ao mundo exterior, e eu não queria voltar a não ser que estivesse seguro. Eu já vinha há anos sentindo que não gostava mais tanto de dar as aulas mais básicas, do começo do curso, e essas são as aulas que a gente mais dá, porque sempre tem mais alunos no começo do que no final do curso. Eu queria dar aulas avançadas, de projetos de quadrinhos, narrativa, roteiro e criação de personagens, ilustração avançada... E era mais raro ter essas aulas. Com a abertura das minhas mentorias fora da Pandora, comecei a desenvolver projetos super bacanas e ver minhas vivências e experiências serem mais úteis em aulas mais focadas com alunos mais avançados.

Também percebi que, de todos os alunos que tinha no segundo semestre, pelo menos metade deles poderiam concluir o curso e seus projetos até dezembro, o que faria o começo de janeiro ser mais "vazio". Coloque isso no ciclo de deslocamento até lá, menos alunos, menos dindim e não ver uma perspectiva de melhora nessas questões, pelo menos a médio prazo (afinal, ainda estamos na pandemia e a procura por cursos não aumentou o suficiente, os cursos novos e mudanças de programas dos cursos existentes não vão sair tão cedo)... Me pareceu que era um fim mesmo, ou pelo menos, o momento propício para tanto.

Em cima de tudo isso, também pensei muito sobre como meu trabalho floresceu durante a pandemia (quem diria, eu achei que podia ir à falência) com projetos bem legais de ilustração, mentorias, vídeos para o canal, commissions, o projeto de Pieces - Parte de Mim, o projeto de Terapia vol.2, as HQs que produzi sendo pago, os contatos se desenvolvendo com a cena independente internacional... E pensei que, poxa, eu dediquei minha vida toda a ser um profissional e viver do que eu amo. E eu sempre fiz isso, mas também sempre sendo professor. Sempre lidei com tudo ao mesmo tempo, e sempre deu certo, mas se tinha um momento que eu poderia me dar a chance de tentar dar o próximo salto em minha carreira, esse momento estava chegando e continuar na Pandora, do jeito que as coisas estavam ou estariam, não estaria nos planos. E eu devia isso a mim mesmo, essa chance de saltar e investir em mim.

Conversei muito com a Mo, muito na terapia, refleti muito mesmo, e decidi que, se tinha um momento certo para concluir minha jornada com a Pandora, era na transição de 20 pra 21. Concluir o ano amarrando as pontas com os alunos que estavam concluindo, de forma online ainda, e assim fizemos, durante janeiro. Os alunos que estavam ainda no meio do curso foram transferidos para ouros professores, a galera nova, jovem e cheia de energia, como eu era em 2007 (alguns até foram meus alunos!), que vai com certeza fazer um ótimo trabalho. 

A Pandora como eu vivenciei não existe mais. A nova Pandora é promissora e desejo tudo de melhor para todos eles, mas eu não me encaixo muito bem. Saí amigavelmente, conversei muito com o pessoal lá, Erika, Flavinha, Amilcar e Ricardo e eles entenderam. Claro que todo fim é um novo começo, mas fim é ruim, né? Impõe mudança, recalibrar as coisas, lidar com a ausência de algo que sempre esteve lá. Meu respeito e gratidão são imensos e eternos, afinal, eles me deram a oportunidade de ser professor, ensinar as coisas que mais amo e crescer com isso. A confiança que sempre tiveram em mim, na minha didática, estilo, propostas e empenho é muito importante, validação que ajuda a solidificar as estruturas internas. 

Saí da Pandora como professor dos cursos regulares, mas continuo parceiro da escola para desenvolver possibilidades pro futuro. Cursos avançados, pontuais podem vir. Aulas de Ilustração Avançada podem se retomadas e eu adoraria dar algumas aulas desse curso. E obviamente, continuo amigo de todo mundo e quero estar presente nos eventos, nas confraternizações e exposições. Assim como já rolou com outros colegas que também saíram da escola em momentos que julgaram ser corretos e hoje estão surfando suas próprias ondas e voltam de vez em quando pra confraternizar. 

É um momento muito especial pra mim, de evolução pessoal, de concentrar minha energia mais em mim mesmo e no que eu quero pra minha carreira. É um movimento importante de voar sozinho, mesmo que eu já soubesse voar e tivesse voado bem longe. É crescer, sair de casa, encarar o mundo. E vai ar certo. 2022 é promissor. Estou cheio de ideias, energia e medo. Não sei bem oque vai acontecer, e isso me incomoda um tanto, mas se eu não tentar, nada acontece. E pra tentar, eu preciso de mais foco em mim.

E é isso.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Qualquer Desenho é Melhor que Nenhum Desenho

Texto publicado originalmente na Newsletter Quebra-Cabeça em 2021 (assine!):

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Qualquer Desenho é Melhor que Nenhum Desenho  

Eu falo essa frase constantemente nas minhas aulas. Falei, também, em diversas lives, palestras, etc. É um tipo de mantra, daqueles que como professor falo pros alunos, mas como artista, falo pra mim mesmo. Recentemente, a Pandora Escola de Arte publicou nas redes sociais essa minha frase, como incentivo para todos os nossos alunos. E quis reforçar essa ideia aqui para você. Eu sei, talvez você não seja artista, nem queira ser. Mas pense nisso em relação ao que você está perseguindo na vida, suas paixões, hobbies ou mesmo seu trabalho. Eu estou sempre fazendo analogias entre o aprendizado e prática de desenho com várias outras coisas. Logo deve vir vídeo sobre isso, também. A questão, pra gente voltar ao assunto, é que muita gente se preocupa demais com o que vai desenhar. Em questão de ideia, qualidade, velocidade, talento... E quanto mais a gente pensa nas coisas, mais expectativas cria e maior a frustração costuma ser, porque acaba que todo resultado é menos ideal do que o que estava na cabeça... E aí isso acaba se desenvolvendo para o pior cenário: a pessoa simplesmente vai parando de desenhar."Se eu for desenhar, quero que saia algo muito bom, perfeito, genial, inédito, que dê resultado de alguma forma"... Bom, jovem, me desculpe pelo choque de realidade, mas nem sempre isso vai acontecer. Nem todo desenho precisa ser especial. Tem vezes que a gente desenha só pra mexer o lápis no papel, rabiscar, brincar, se distrair. E tudo bem. Quando meus alunos falam que desenharam pouco (e esse pouco é relativo), eu mando essa frase. E eu digo isso pra você desde já. Pelo menos, você desenhou! Poderia não ter feito nada. Mas você fez alguma coisa, e alguma coisa é melhor que nada. Porque esse "alguma coisa" é, no mínimo, o resultado de um tempinho que você se deu, se permitindo fazer algo que gosta. E aí, na aula, a gente vê esse "pouco" desenho e comenta, analisa, corrige se precisar. Usa ele como referência, ponto de partida, inspiração. Tem uma outra frase, que eu geralmente credito ao Jake Parker, também muito valiosa para esses momentos: "Finished, not perfect". Pode traduzir como "feito é melhor que perfeito". E olha só, tem uma lógica inquebrável aí: perfeição não existe.E seja qual for a sua expectativa com o que produz, o resultado não depende da expectativa, e sim de técnica, prática, empenho, vontade, tesão, tempo, contexto, etc... Gerenciar expectativa é muito bom. Tem desenho que não precisa ser especial. Tem desenho que tem que ser especial. Como você se alinha para chegar lá?Outra coisa, aí para você pensar e quem sabe a gente volta nesse assunto em breve. Você não precisa usar 100% dos seus poderes toda vez que for desenhar algo. Sabe por quê? Porque nem todo desenho precisa ser especial. Nem todo desenho é trabalho, nem todo rascunho é descartável. O lance é entender a realidade do seu trabalho, qual é o nível mais alto que consegue entregar numa obra?A gente só consegue ser tão bom quanto é bom nesse momento. Não dá pra ser melhor que seu melhor. O que dá sim pra fazer, e aí é algo pra refletir, é ser pior que seu melhor. Mas mesmo isso pode ser válido. Já te falo disso. Vamos voltar a falar sobre o melhor. Você só pode chegar ao seu melhor. Esse é seu 100%. O SEU 100%, não o 100% que você inventou como meta ou que o mundo parece cobrar de você.E, se você evoluir no processo de fazer, esse novo melhor automaticamente se torna seu máximo, e você pode chegar lá. Não que você tenha que, ou deva, mas você pode. Vai depender do que você está fazendo, qual contexto, qual objetivo e, mais importante, qual a necessidade de dar 100%. Sério. Nem sempre precisa.E o motivo disso é que a gente deve caminhar para chegar num nível em que você pode determinar o quanto vai empregar da sua potência total. De novo, nem todo trabalho ou projeto precisa ser feito no 100%. Mas tenha em mente que seu, sei lá, 50% já é bem legal e dá conta do recado. Você gerencia, a cada projeto, e considerando cada situação, o que é o melhor que você pode entregar. Tem coisas que podem muito bem ser resolvidas com seu 60%. Não precisa ser épico. Só precisa ser feito. Então, quando você se pegar pensando que não fez o suficiente, não tem ideias para algo realmente legal ou ficar analisando seus desenhos sob uma expectativa irreal, é só dizer pra si mesmo: qualquer desenho é melhor que nenhum desenho. Ah, e se você quiser um pouco mais de reflexão sobre como quebrar o bloqueio criativo, que tal ver esse vídeo?