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terça-feira, 11 de outubro de 2022

Frequência, Ferrugem, Confiança, Cachorrinhos e Desenhos (Newsletter)

Hoje é meu aniversário! Pra comemorar, trago para vocês um dos textos mais importantes que escrevi esse ano. 

Este texto foi publicado originalmente na Newsletter Quebra-Cabeça, edição 42, em 9/9/2022.

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      Frequência, Ferrugem, Confiança, Cachorrinhos e Desenhos      

(Obs.: Eu ainda não bati o martelo quanto ao nome dessa teoria, mas essa me parece ser a que mais funciona. Tem alguma sugestão?)

Eu voltei a desenhar! 

Então, como eu já vinha falado aqui e ali, com toda a correria dos últimos meses (vida cartas anteriores), por incrível que pareça o que eu manos fiz foi desenhar. Claro, eu desenhei a HQ do Projeto Didático, fiz alguns freelas e rabisquei uma ou outra coisa pra mim. Mas não foi suficiente. E isso tem a ver com a Teoria que eu quero apresentar hoje. É mais uma daquelas minhas teorias, tão usada em sala de aula e que servem pra orientar não só os alunos mas também a mim mesmo. É engraçado, por exemplo, quando eu dava essas dicas para os alunos nas aulas da Pandora e eu mesmo não conseguia aplicar pra mim. 

A coisa é que esse desenho meio idealizado que eu coloco aqui como meta é o desenho que se faz num misto de trabalho e lazer, sem grandes pretensões e que serve como uma forma de aquecimento pata o desenho "trabalho", "oficial". É o hábito de desenhar constantemente, independente da técnica, do tema, do objetivo. É ter tempo e espaço e cabeça para sentar com calma. Só desenhar. 

De certa forma, o desenho permeia a vida do artista profissional e é difícil entender onde acaba o trabalho e começa o lazer ou o estudo. Ultimamente, eu só andava desenhando oque tinha a ver com trabalho. Era menos tempo e cabeça pra dedicar ao desenho, então ganhava sempre o desenho pros projetos e clientes. E esse desenho pode não ser satisfatório num âmbito... emocional?

Enfim, nas últimas semanas, passado o grande rolê da viagem da Monica, eu me vi com mais tempo e espaço (e, eventualmente, cabeça) e fui colocando o desenho de volta nessa rotina. Começar é o mais complicado (e tem a ver com outra teoria, a Teoria do Trem - um dia eu falo dela), porque envolve romper uma inércia. Quando se está acostumado a não desenhar, parece mais fácil usar os tempos que aparecem para resolver coisas mais direto ao ponto, práticas e mundanas. Coisas que dão um resultado meio previsível e satisfatório, justamente por serem fáceis de resolver. E o desenho, nesse ponto, como está meio de lado há um tempo, parece uma montanha mais complicada de subir - e com menor potencial de satisfação. 


Cavaleiro da Lua com umas experiências, um dos primeiros desenhos dessa retomada

Olha, não vou mentir, pegar as coisas pra desenhar e ficar um tempo lá e não sair nada é bem frustrante. Quando digo "não sair nada" é porque mesmo que você desenhe algo e aquilo seja tecnicamente bem resolvido, ainda não satisfaz. Então, até sai o desenho, mas não resolve o que se estava buscando. Isso tem uma ligação, pra mim, com uma nostalgia, uma memória afetiva do desenho tendo aquele papel, aquela sensação, aquela relação. E quando aquilo não acontece...

E isso acontece, eu acredito, justamente por falta de frequência. 



Pessoas

Qualquer coisa que sabe fazer precisa de prática. Mesmo sabendo fazer, tendo domínio consciente de todas as partes daquela coisa, ainda assim, é preciso se manter perto dela, fazendo e dando chance de coisas interessantes acontecerem (como, por exemplo, melhorar naquilo). 

O exemplo que usei hoje na terapia pra explicar isso é uma amálgama de duas vertentes: exercícios físicos, pra representar a parte motora, física de desenhar; e falar um idioma, pra representar a linguagem, aparte mental. Desenho é os dois ao mesmo tempo. E quando existe uma rotina, um costume e uma dedicação a essas coisas, constante, você chega num ponto de fluência e controle, entra num fluxo, num estado mental, onde a coisa acontece sem grandes problemas e, estando conectado dessa forma, o resultado tende a ser satisfatório. Tudo flui. 

Agora, se existe o hábito de se exercitar todo dia e por algum motivo você para, voltar àquilo é um pouco complicado. Quanto mais tempo se passa longe daquela conexão, pior: mis difícil vai ser retomar, porque por mais que exista uma fluência e uma memória, que não se perdem, existe uma ferrugem. É como andar de bicicleta, baita clichê mas funciona. 


O Bátema

E na hora de retomar é preciso ter noção de que provavelmente a coisa não vai fluir da mesma forma. É preciso se reacostumar, pegar o jeito, se adaptar talvez. E nesse processo, se você não tem tempo/espaço/cabeça para ficar lá o suficiente pra desenferrujar, o resultado vai acabar decepcionando - se é que alguma coisa vai sair.

E aí, a frustração com o processo que não rolou como você lembrava e desejava vai tirar o ânimo de continuar engajado naquilo e até de voltar em outro momento. Justamente porque sempre tem alguma outra coisa que precisa ser feita e pode ser mais satisfatória... Mesmo que seja, aiaiai, ficar doomscrolling no seu celular.


O Miarã, antes das cores

Então, minha Teoria da Frequência afirma que, para estar fluente e conectado com o que você ama fazer, é preciso fazer isso constantemente, nem que seja preciso abrir mão de outras coisas. Ficar longe dessa atividade que traz tanta sensação boa e resultados bacanas vai atrapalhar a relação que temos com essa atividade.

No caso de coisas que envolvem criatividade, isso é especialmente complicado, porque pode mexer com o emocional de um jeito mais profundo ainda, afetando sua autoconfiança em áreas além do seu trabalho. E isso acontece comigo. 

Ficar muito tempo sem desenhar me faz questionar o meu desenho, minha técnica, minhas ideias, meus estilos. Questiono a relevância do meu trabalho, das minhas aulas, das teorias, do meu papel na cena. Existe uma força interior, atrelada à criatividade e produção, que está intimamente ligada à minha sensação de valor (maldito capitalismo!) e que me energiza para não só fazer mais do que eu já faço, mas ir além.

Pois. Nas últimas semanas eu venho recolocando o desenho de forma mais frequente na minha vida. Em meio a cuidar das coisas da vida real, eu retomei o hábito de desenhar por desenhar. Ajuda muito o fato de que eu ainda estou entre unidades no Projeto Didático e portanto, sem prazos e metas pra cumprir. Estou desenhando o que dá vontade de desenhar, testando uns materiais, explorando estilizações, confiando no que eu já sei que sei fazer (é menos frustrante). Estou postando esses desenhos no Instagram e Twitter.


Demolidor feito durante uma live no Instagram

E tem sido muito bom. Eu literalmente me sinto BEM quando eu desenho, especialmente quando entro nesse fluxo, essa coisa nostálgica. Eu lembro do porque eu amo fazer isso. Eu me sinto mais forte, mais válido, mais engajado. Sinto vontade de criar coisas novas e quanto mais imerso eu fico nessa experiência, mais eu tenho confiança no que faço e queria criar. E isso é essencial para fazer as coisas, independente de onde elas vão chegar (ou SE chegarão, tanto faz). 


Wolverine no caderno

No meio dessa retomada do desenho, eu recebi pelo Instagram uma coisa muito bacana: um desenho meu, provavelmente de 1992,quandoeu tinha 8 anos. Era a capa de um gibi do Ronaldo, meu personagem. Nela, o Ronaldo, um cachorrinho caramelo, brinca de avião de controle remoto com seu amigo, o Pato Raider, e derruba o avião dele com um "míssil". Olha ela aí, que graça:



A capa tem design editorial, tem narrativa, tem pretensão, tem energia. E achei tão legal revisitar essa capa que decidi redesenhá-la. E fiz isso numa live no meu canal do Youtube, que durou umas 3 horas e foi acompanhada por uma galera (inclusive meus pais, que me viram desenhar a Turma do Ronaldo mil vezes, e o próprio Ronaldo, meu vizinho da época e grande amigo, que inspirou o personagem). A última live que eu tinha feito pra desenhar tinha sido em 31 de janeiro! Dá uma olhada como ficou:



Eu me diverti demais fazendo isso! Revisitar essa infância e a relação com o desenho desde lá atrás me fez muito bem. E continuei. Por causa de um probleminha com os bookplates do Terapia Vol.2, me vi sem poder continuar o envio dos livros, então me voltei aos desenhos originais para alguns apoiadores. E, para garantir que eu estaria afiado o suficiente (lembre, muito tempo sem desenhar, especialmente no tradicional, me faz perder um tanto da precisão e da confiança no traço), fui fazendo desenhos de aquecimento, esses que mencionei acima. Entrei numa onde muito boa de arte-final e estou bem satisfeito com os resultados (não 100%, mas quase). 


Moça ensolarada no caderno

Pretendo continuar com as lives no Youtube e no Instagram, pra desenhar e conversar com as pessoas. Trocar ideias, responder perguntas, fazer desafios. Eu preciso disso, preciso me manter conectado com o desenho, com a criatividade, com a cena, com os amigos, com o que me faz bem. Isso me fortalece. E essa frequência de conexão me permite fluir melhor por estas vertentes da minha vida e, mais que tudo, experienciar o desenho da forma que eu sempre gostei de fazer.


Obi-Wan no papel azul (E uma Batgirl)

Apesar desse textão todo, a Teoria da Frequência é simples. A complexidade vem da forma como a gente se relaciona com aquela coisa que amamos fazer. Cada um tem um jeito de lidar com isso, mas espero que essa reflexão te faça pensar também nas suas relações com as suas coisas, e te inspire também a dar um jeito de se manter conectado a ela, ou, se for o caso, reconectar de vez - e nunca mais parar.

Que bom estar de volta.

PS.: Se você quiser assistir a live onde eu recriei a capa da Turma do Ronaldo, é só clicar na imagem:



PS. 2: Fiz outra live eses dias pra arte-finalizar uma das artes do Catarse, um Beakman. Pra assistir, clica aí embaixo:

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Encontro Ilustra ao vivo

Oi, pessoal! Hoje tem bate-papo ao vivo no canal do Encontro Ilustra! 

Vou conversar com o Marcel Bartholo sobre meus trabalhos e carreira, novos projetos, dicas e segredinhos a vida do autor de quadrinhos e responder as perguntas do público.



 

Release:

02/09/2020
Vamos bater um super papo com o Quadrinista e Ilustrador (e youtuber rs) Mario Cau !
Vamos conhecer seus processos criativos e falar sobre sua incrível dedicação aos Quadrinhos!
O horário será um pouquinho mais tarde que o usual... Não percam!
20:30h da noite!
Mandem suas perguntas!
Apoiem seu projeto no Catarse que comemora os 15 anos da série "Pieces"

quarta-feira, 29 de julho de 2020

Acolhida de Aula - Semana de 15 de julho de 2020

Bom dia, pessoal! Tudo bem por aí?Como está o rolê de confinamento? Quantos de vocês estão conseguindo ficar isolados? Tem um peso associado a esse tempo, a nossas escolhas. Existem consequências, boas e não tão boas. A gente vai tocando em frente como podemos, da melhor forma. E no meio disso tudo, desenhar!Hoje, sábado, além da aula, é dia de faxina aqui em casa. Confesso para vocês que eu detesto fazer faxina. Não é só o fato da rinite alérgica ficar espreitando pra estragar o meu nariz, mas todo o processo de usar o tempo, esse bem tão precioso, para tirar tudo do lugar, passar pano e produtos , colocar tudo de novo e ver que, meia hora depois, já tem pó de novo. Aqui acumula pó, não tem jeito. E ainda tem muito livro, bonequinho, estátua, porta-retrato, enfim. Mas é necessário.O que acontece é que eu fico na ansiedade da coisa começar e começo bem sem vontade, aos poucos. Quando vejo, sou uma máquina de limpar. Só me dê uma boa música e uma missão, e lá vou eu. Não que eu goste, mas é o que tem que ser feito, e uma vez imerso na experiência, o rendimento sobe e fico mais concentrado em cumprir a tarefa da melhor forma que eu sei (que não é lá muuuito maravilhosa, mas é o melhor que tenho pra oferecer). Depois, quando acaba, a gente fica cansado, estressado, com o nariz zoado, mas com a sensação boa de ter cumprido a meta,e a recompensa é a sensação boa de uma casa limpa e cheirosa (e, mais  importante de todas, a certeza de não precisar faxinar por pelo menos mais 15 dias, haha).Esse processo de tirar coisas do lugar, limpar e organizar é muito importante. Nos convida a refletir sobre nossas coisas, tudo que temos. Nem vou entrar na questão de "nós não somos o que temos" e tudo mais. Mas nós precisamos mesmo de tudo isso? E, citando a Marie Kondo, essas coisas nos trazem alegria (spark joy)? Se não, por que manter? Limpar as coisas nos traz mais pra perto delas, nos faz relembrar momentos diversos e resignificar tudo para um novo momento. Reorganizar é algo bom, também, pois quando as coisas ficam muito tempo do mesmo jeito, elas ficam invisíveis. Mudar é legal. Não sei vocês, mas eu detesto ficar o tempo todo mudando as coisas de lugar (pode ser uma estatuazinha na estante ou todo o layout de uma sala - e nem me deixem começar sobre a reforma da cozinha...). Mas várias vezes eu quis ou fui convidado (ou intimado...) a reorganizar as coisas no meu espaço físico, e por mais resistência que eu tenha oferecido, o resultado é legal. É bom mudar as coisas de lugar às vezes. É melhor ainda revisitar seus espaços e resignificar as coisas. Porque esse movimento todo, no mundo real, nos faz movimentar as coisas no mundo interno, e é aí que residem as grandes mudanças.Mudar o espaço físico não adianta nada se o seu espaço interno não estiver, também, organizadinho. Gosto da ideia de que a gente tá em constante evolução, e estacionar não é uma boa ideia (mesmo que você esteja num lugar muito bom). Revisitar, relembrar, resignificar... Tudo isso é importante. E como tudo na vida, não é pra ser diariamente e não é pora ser uma vez a cada 15 anos.  Tudo precisa de equilíbrio. Se você não tem, você busca. E não precisa ser fácil (geralmente não é), mas a gente vai em frente. E sabe, todo esse papo de faxina e organização tem muito a ver com o desenho e os processos criativos.Semana passada eu peguei pra organizar meus lápis de cor (uso pouco, mas gosto de ter). Apontei TODOS, tirei uma pequena floresta de madeira deles na mesa da sala. Alguns, com a mina toda quebrada, johuei fora. Outras cores que eu tinha repetidas (são uns 30- anos de desenho, né, alguns lápis duram bem) eu separei pra doar. O porta lápis ficou bonitão. Enquanto fazia isso, eu sentia o cheiro das madeiras, tomava sol e lembrava muitos momentos bacanas com aquele material. Um tempinho atrás, organizei meus marcadores e canetas (tem até vídeo no meu canal). Esse processo é bem legal. Hoje, com a faxina, já estou pensando na ideia de reogranizar meus livros na estante. Mas, de volta ao desenho: nós somos processo, o desenho e a criatividade são coisas pra exercitarmos o tempo todo, consciente e inconscientemente. Desenhar é organizar! É pensar, refletir, sentir e testar coisas. às vezes, você desenha pra "tirar o pó" de algo, seja uma memória, sentimento ou técnica. E quanto ,mais a gente pratica, mais fica proficiente, melhor o resultado, mais compreende o rolê todo. Se você deixa pra faxinar a casa uma vez por ano, vai ser tenso! Se fizer de ve em quando, ou aos poucos, nunca conclui. Esses processos são constantes. E a gente precisa passar pelo processo todo para chegar naquele final, de gostar do que fez, sentir a recompensa e aí sim, fazer as coisas com menos peso.Eita que eu viajei aqui. Continuando pra outros assuntos...Desde domingo venho namorando a ideia de uma série de ilustrações e tiras sobre a vida na quarentena, do ponto de vista do autor mesmo. Saiu no Instagram uma prévia, e espero ter o foco pra fazer mais. É uma ideia tbm, pra todos vocês tentarem: um tipo de diário gráfico com qualquer coisa que vocês queiram dizer ou mostrar, refletir ou criticar dessa experiência doida. Nem precisa mostrar, nem aqui nem publicamente. Essas coisas tipo diários são boas pra gente poder descer a lenha noque nos incomoda e processar os sentimentos e pensamentos pra tentar chegar em algum lugar, mesmo que esse lugar físico seja o mesmo. O importante, hoje em dia, é a jornada interna.Queria indicar um site muito legal que encontrei ontem. Você pode observar um vídeo da vista de uma janela aleatória ao redor do mundo. É bem bacana, às vzs deixar rolando no monitor enquanto desenha algo ou lê um livro... é uma forma de variar um pouco a paisagem né? :piscando_olho:
https://window-swap.com/Bora, então. "Pra cima do leão, que o leão é menso", como já dizia um velho professor da faculdade.
Tô por aqui, é só chamar!

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Ser Autor - Como você gerencia sua Energia Criativa?

Acompanho o trabalho do Jake Parker há um tempo. Seja nas redes sociais (especialmente o Instagram, onde podemos ver sua arte), seja no YouTube (onde ele teve uma fase muito boa criando conteúdo para artistas,quadrinistas e empreendedores criativos), ele sempre traz uma sabedoria de quem tem vivência com uma leveza que, pensando nos tempos acelerados que vivemos, é meio rara. Todo seu perfil dialoga com o meu, e aprendo muito com ele em todas as suas produções. O cara é uma grande inspiração e hoje não foi diferente.

Assinei a Newsletter do Jake há umas semanas, para me manter em contato com suas reflexões, e hoje recebi uma bem bacana. Ele comenta sobre um livro que está lendo, chamado "War of Art", de Steven Pressfield. E um dos trechos que ele cita e depois reflete sobre me deixou pensando. 

Nos últimos meses, tenho andado desanimado, sem inspiração e um pouco confuso com meu trabalho. Tendo concluído praticamente tudo de Monstruário Vol.2, minha ideia era seguir em frente para o próximo projeto. Porém, por motivos diversos, Monstruário não evoluiu como esperado, e continua em fase de pós-produção e revisão. Na minha cabeça, a essa altura, já deveria ter saído, mas forças além da meu alcance fizeram com que o lança,mento atrasasse. O livro vai sair, sim, com toda certeza, mas não mais no primeiro semestre como prometido. 

Meu alento é saber que eu fiz toda a minha parte e mais, sempre estando presente no processo quando necessário. Inclusive, como editor. Essa presença tirava o foco do próximo projeto, que, vejam só, acabou também sendo deixado em segundo plano por motivos além do meu controle. 

Em meio a um tipo de limbo, onde eu não sabia direito o que fazer e tinha uma lista de coisas pra serem feitas, a energia para produzir arte só diminuía. Então, tarefas, projetos e obrigações ligadas ao campo criativo foram ficando mais difíceis de resolver. Estava desanimado, e em alguns momentos, desacreditado, num panorama grande. Não só com o meu projeto atual, mas com o mercado inteiro e as possibilidades para o futuro. Meio dramático, mas hey, eu sou assim.

Nos últimos dias, as coisas têm melhorado. Depois de passar uns dias doente e bagunçado por causa do antibiótico, graças à volta para terapia (a real, não a HQ...), a conseguir organizar e resolver questões internas aqui de casa (vida real, ela existe), e determinar que tal e tal projeto, agora, não vão ter mais minha prioridade (afinal, de que adianta eu ficar em stand by para que processos que não dependem de mim evoluam se isso só me traz ansiedade e desânimo...?), consegui desenhar umas coisas e retomar o projeto que, esse sim, depende apenas de mim.

E foi nessa sexta, depois de uma semana me reorganizando, que o Jake chegou com sua Newsletter e me brindou com essa reflexão, que traduzi para vocês:

"Vou deixá-los com uma coisa que têm me dado muito oque pensar. A força gravitacional do seu trabalho.

Na página 108, Pressfield diz: 'Quando nos sentamos, a cada dia, para fazer nosso trabalho, um poder (ou força) se concentra em torno de nós.' Produzir alguma coisa nos custa energia, mas quando você comparece para fazê-lo (e aqui eu quero dizer, de fato botar a caneta no papel) os deuses da criatividade emprestam sua mão e ajudam. 

No final do dia, você tem uma pequena massa de matéria criativa que consegue se manter estável. Quanto mais você trabalha nisso, mais massa criativa seu projeto acumula, até que ele tem o suficiente para te tirar da cama e te sugar pra dentro dela todo dia. 

Porém, deixa-a de lado e a consequência é menos atração. Se você largar mão de uma ideia ou projeto, eles flutuam pra longe ao invés de se agregar à massa criativa.

Tudo isso para dizer que você precisa se mexer e fazer o seu trabalho criativo. E ser consistente. É o único jeito de se concluir qualquer coisa."

Bom, eu não poderia concordar mais. A frequência, a assiduidade do autor em seu projeto, faz muita diferença. A inércia é sempre complicada de romper, e vivemos uma época onde procrastinação, ansiedade, auto estima e tantas outras questões podem abalar nosso rendimento como artistas. Essa citação do Jake é muito pertinente porque ressoa com muito doque acredito ser verdade no processo criativo. Não adianta ficar parado esperando ou culpar fatores diversos pela falta de resultados. Você precisa agir, mergulhar, se permitir focar no que ama e fazer tudo de forma profissional e apaixonada, e isso vai criando uma energia muito boa em torno da sua rotina e do seu projeto.

Eu tenho uma teoria (que vai virar um vídeo no meu canal em breve) que compara nosso desenvolvimento em projetos com um trem: é preciso, no começo, romper a inércia e forçar a máquina a se mover. Eventual,ente, você atinge uma velocidade estável e os resultados também vão sendo gerados de forma estável, até que você precisa parar. Quanto mais tempo a locomotiva fica parada, mais difícil é romper novamente a inércia e mais  energia você vai ter que usar (mental e física) para se aproximar daquele fluxo incrível de produção, a submersão tão almejada e que faz tudo parecer fácil.

Então, após vários dias de inércia, me sinto novamente fazendo a máquina andar, rompendo a ferrugem mental e física. Eu simplesmente amo estar "in the zone", produzir, desenhar e editar com ritmo,com paixão, com tesão. E não é sempre que isso acontece. A vida, jovens, às vezes vai te exigir a presença noutras questões, e é preciso saber onde investir energia e planejar tudo, não só seus projetos artísticos, mas a vida toda. Faça disso sua responsabilidade, seja profissional no trabalho e atencioso,carinhosos e dedicado na sua vida real (mas não gaste sua energia com coisas que te deixam pra baixo, a vida é curta pra perder tempo com o que não nos faz bem). 

Meu próximo projeto vai ser anunciado no meu próximo vídeo do YouTube, enquanto aguardamos novidades sobre o lançamento de Monstruário Volume 2.

Se você curtiu esse texto e esse assunto, deixa seus comentários! Fale oque pensa e oque sente sobre isso, e vamos trocar ideias.

terça-feira, 23 de abril de 2019

YouTube - Materiais Fantásticos, parte 1

Oi, pessoal! Tudo bem?

Este post é para anunciar que o segundo vídeo do meu canal (o quê? Você não sabia que eu tenho um canal no YT? Mas clique já aqui e corra assistir!) já está no ar!

Intitulado "Materiais Fantástico e onde encontrá-los", é a primeira parte de uma pequena série sobre minha viagem ao Japão, em março de 2019. Neste vídeo, vou apresentar e comentar três lojas bacanas e ainda explicar um pouco sobre como é comprar com Tax Free no Japão, assim como dar umas dicas da viagem, caso você vá pra lá.

Como o objetivo do canal - e deste vídeo- não é ser um guia de viagem, foquei apenas nas dicas das lojas. Mas se vocês quiserem mais dicas de viagem, posso considerar fazer um vídeo só sobre isso.

Espero que curtam! Assinem o canal, curtam e compartilhem, aquele lance de sempre. E se tiverem alguma pergunta, é só deixar aí nos comentários e eu respondo assim que puder!

Para assistir, é só clicar na imagem logo abaixo!








segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Opinião - Do Twitter ao Facebook

Então, um aviso para meus amigos e leitores que me seguem no Facebook
Ontem recebi um email do Twitter avisando que o sistema que eu usava para publicar aqui o que eu publicava lá automaticamente foi descontinuado. Então, oficialmente, o Feice não republica mais meus tweets aqui.

Fui ver se isso também aconteceu com o IFTTT (um site onde você pode cadastrar suas redes e fazer combinações de posts e etc.) e lá, também, o Twitter e o Feice não mais funcionam juntos. Não só isso, como o Blogger e o Wordpress não serão mais repostados aqui.
Sinceramente, por mais que entenda que possam existir explicações lógicas, acho um tiro no pé. Eu fiz esses links entre meus perfis e redes justamente para não precisar ficar entrando em um por um, postando o mesmo conteúdo ou links, o que me atrasava e confundia.
Mas quem entende minimamente das redes sociais sabe do esforço do Feice pra manter as pessoas aqui dentro, tanto que quase ninguém lê mais blogs ou sites.
Enfim, dessa forma, vocês vão acabar vendo muito menos conteúdo meus nessa rede, pois eu costumo postar e interagir muito mais pelas outras.
Abaixo, coloco os links para minhas redes mais utilizadas. Espero que essa mudança não diminua mais ainda a pouca interação que tenho com e de vocês nos posts sobre meus projetos e trabalhos, e vou tentar postar mais coisas por aqui pra ver se as coisas movimentam mais.
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Em tempo, eu tenho uma página do Facebook, mas que está muito desatualizada. Por enquanto, o meu perfil pessoal é onde as coisas acontecem.
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Meus links:
Petisco Webcomics, onde publicamos Terapia por 7 anos (você pode ler a HQ completa lá e ainda comentar as páginas): www.petisco.org/terapia
- Loja virtual, onde você encontra prints, livros, artbooks e artes originais: https://mariocau.lojaintegrada.com.br/
- Loja no Colab55, com produtos variados com artes minhas: https://www.colab55.com/@mariocau
- Minha loja no Urban Arts, onde você encontra prints de alta qualidade das minhas artes: https://www.urbanarts.com.br/mario-cau-864/f

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Reflexões - Sobre aprender

Bom dia, meus queridos! Compartilho aqui no Blog'n'Roll uma mensagem que postei no grupo dos meus alunos no Facebook.

"É fazendo que se aprende a fazer aquilo que se deve aprender a fazer."

Começando a semana com uma frase do Aristóteles (sim, estamos super cultos citando filósofos gregos). Ouvi essa frase no podcast do Mario Sérgio Cortella da CBN. Recomendo, aliás, são programas diários com pensamentos interessantes.

Agora, sobre essa citação, é incrível como ela pode ampliar nossa reflexão sobre aprender e produzir arte. Mesmo dando aulas há mais de 14 anos, ainda estou aprendendo, a cada dia, conforme vou produzindo. Estamos vivendo uma época onde todos querem resultados rápidos, mil likes e fama.

Mas veja, arte não é uma corrida, arte é algo que leva uma vida pra se desenvolver. O que não pode te impedir de simplesmente produzir, correr atrás, fazer aulas, etc. Você aprende, pratica, evoluiu e com isso, aprende mais, para praticar mais... E assim a coisa continua andando.

Bora pensar nisso? Bora fazer, produzir, curtir a jornada? Não existem fórmulas definitivas ou resultados imediatos.

Boa semana pra todos vocês!

PS.: Falei das minhas aulas e, para quem não sabe, eu sou professor da Pandora Escola de Arte desde 2007. Meus cursos são HQ, Ilustração, Quadrinização, Ilustração de Mercado e Projeto Pessoal. Para ter mais informações dos cursos, é só acessar o site da escola (link aí acima). Tenho um grupo secreto no Feicebuque para todos meus alunos e ex-alunos poderem trocar ideias, referências, inspirações e postar seus trabalhos e estudos.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

Opinião - Propostas absurdas

O que chamamos de "mercado de trabalho para desenhistas, ilustradores, designer, quadrinistas e afins" (chamaremos só de "mercado" pra facilitar, mas já adianto que esse termo vai render uma outra coluna mais pra frente) é um tanto peculiar. Entre projetos incríveis, oportunidades imperdíveis e a infinidade da internet para mostrar e consumir, sempre existem as propostas absurdas, clientes mal-informados (e, às vezes, mal-intencionados mesmo) e armadilhas. É comum entre nós, nas conversas e aulas, compartilharmos essas histórias. Acho inclusive importante, não como combustível de mimimi entre gente rancorosa, mas sim como um tipo de alerta bem-humorado (o desabafo está implícito, sempre) que pode render conselhos e soluções interessantes dos colegas. E, mais importante, pode render aprendizado e autoconhecimento como profissional para saber lidar com essas situações ao longo do trajeto (porque, você sabe, elas vão continuar acontecendo).

Feita essa introdução meio longa, vamos ao fato que me levou a escrever mais esta coluna. Essa semana, minha amiga Mariana Guerra me marcou em um post da página "Vagas Arrombadas" do Facebook. Fui lá, curioso para ver, e encontrei a imagem abaixo:


A incrível proposta em pauta.

Hmm.

O nome de quem fez essa postagem foi apagado pela própria página, obviamente. Mas esse é um tipo de proposta que encontramos e encontraremos pelo nosso trajeto como artistas. Nesse caso, mais especificamente e foco do meu texto, quadrinistas (e aí vale todo mundo no processo criativo, desde o roteirista até o editor). Nada muito novo, mas como a coisa foi recente e eu compartilhei, gerando uma interação bacana com meus amigos e alimentando o post original, vale a reflexão.

A proposta já chega com uma sinopse pronta, e vou supor aqui, que o artista "contratado" não teria muito o que contribuir nessa etapa. O autor proponente parece já ter "tudo resolvido", e precisa de um artista mais como "mão-de-obra" pra produzir as páginas do que como coautor. Se fosse assim, com um pagamento acertado, justo e coerente, e o artista topasse, manda ver. Mas eu sou, sempre fui, muito a favor da coautoria. Isso é, criar junto, elaborar tudo do começo para que o projeto seja não só de uma pessoa, mas de uma equipe toda. Quanto mais definida estiver a ideia e o roteiro originais, e também quanto menos maleável for o projeto, menos espaço um artista tem para se colocar. A ideia da coautoria cai por terra, fazendo do artista "apenas" um tipo de "mão-de-obra contratada".

A proposta também deixa claro que o artista não será pago. Isso acontecerá quando - e se - o projeto gerar lucro. 50% para cada autor (considerando que seriam só roteirista e artista) não é tão absurdo assim, se formos pensar justamente, tanto na esfera financeira quanto artística - a autoria de fato. Agora, qual é a vantagem disso para qualquer artista? Sinceramente, já produzi muito quadrinho nos meus mais de 10 anos de carreira. Já fiz projetos solo, em parceria, como contratado. Em todas eu sempre tentei fazer junto, de forma horizontal. A ideia de mergulhar num projeto de outras pessoas envolve um comprometimento grande... E o que há em troca?

Quero dividir esse pensamento em duas frentes: o trabalho em si, e o pagamento por ele.

Primeiramente (fora Temer), a produção. Roteiro também é difícil, leva tempo e exige criativamente. A gente pode pensar que, para sentar e escrever um texto no Word ou num caderno, é coisa simples. E comparar com o desenho e todas suas etapas, material e tempo, faria parecer que ilustrar é muito mais trabalhoso - e portanto, merece mais pagamento - que o texto. Isso não é bem verdade, pois depende de diversos fatores. Não quero entrar no mérito de comparar essas duas etapas, e estou considerando que o artista nessa proposta fará o desenho, cores e balões. Durante a produção de Terapia, eu cuidei sozinho de toda a produção visual: lápis, nanquim, cores, balões; e também dos posts no site e a maioria dos textos de apoio nos posts. A partir do capítulo 8, eu comecei a ajudar mais ativamente no roteiro. Isso tudo leva um tempo considerável, ainda mais se pensarmos que produzir Terapia nunca rendeu nenhum ganho financeiro (exceto, obviamente, os livros que vendo nos eventos, mas isso fica pra outro texto).

Nunca devemos desmerecer o trabalho do roteirista pela parte mecânica da coisa (escrever de fato), pois há processos intelectuais imensos por trás de tudo isso. E considerar o tempo dedicado como fator de comparação de valor é injusto, visto que tem gente que, para produzir textos, leva dias e dias enquanto existem desenhistas que, em 2 horas, resolvem uma página inteira. Tudo é relativo, e, se no final das contas, os autores (veja, AUTORES e não AUTOR E DESENHISTA QUE TOPOU O ROLÊ) decidem que 50% dos ganhos para cada um é justo, então é justo para eles e ponto final. O que não podemos fazer é decidir de forma injusta para a equipe presumindo valores equivocados para as etapas de produção.

Além disso, pode-se refletir sobre as vantagens artísticas do projeto. Uma ideia de benefício mútuo, evolução artística e profissional, pode fazer com que uma equipe se amigos ou mesmo de desconhecidos se una para gerar um projeto bacana. A ideia é crescer juntos, criar juntos. Todas as etapas têm seu valor no projeto, artisticamente falando. Se o projeto não te parece tão interessante, se não te puxa pelo coração, não te instiga tecnicamente... Enfim, oque tem de realmente relevante para que você se envolva, dadas as circunstâncias (não só nessa proposta em pauta,quando em qualquer outra)?



Segundo, agora sobre pagamento. Tempo é dinheiro. Ponto final. Quem TRABALHA com arte em geral o faz por gostar disso, muito provavelmente, mas porque é um trabalho que gera dinheiro que é usado para pagar contas, como qualquer outro trabalho. A proposta sugere que não haverá pagamento nenhum pro artista. No texto original, consta a pérola: "Você, quadrinista, trabalhará de graça até que a obra seja publicada". E fecha com outra: "Terá que ter disponibilidade para fazer uma página por dia". Ai, ai. Olha, veja bem, eu já fiz MUITO quadrinho de graça. Em certos casos, eu até "paguei para fazer quadrinho", no sentido de que além de não ganhar dinheiro, eu ainda gastei dinheiro (com material, reuniões, contas da casa, compra de exemplares, etc.). Fazer um projeto de quadrinhos sem ser pago por isso é, na real, muito mais comum que o contrário, especialmente no Brasil. Não temos um mercado sólido e gigante que permita esse tipo de trabalho nos moldes dos mercados internacionais. Então, quem faz está realmente dedicando seu tempo e talento para produzir algo no que acredita de verdade. Não critico isso. A minha crítica maior nessa proposta é justamente COMO se propôs o trabalho. A construção da frase  "Você, quadrinista, trabalhará de graça até que a obra seja publicada" beira a arrogância. Não é assim que se busca um parceiro para um projeto autoral sem garantias. Talvez, se a frase fosse melhor construída, não gerasse tanto incômodo.

A ideia de produzir uma página por dia também é um pouco complicada. Isso depende de muitos fatores. Sei que existem roteiristas com exigências imensas em relação à arte, seja em questão de realismo ou estilização, de referências, de detalhezinhos. Quanto mais a produção da página for atender minuciosamente todos os desejos mirabolantes do roteirista (supondo que seja assim), mais tempo leva pra finalizar. E tempo, jovens, é dinheiro. Tempo é a única coisa que você nunca vai conseguir ganhar ou comprar de volta. E nem todo artista consegue, de fato, produzir uma página por dia: ou seu método é elaborado, ou desenha devagar, ou tem afazeres diversos (estudar, cuidar da casa, trabalhar em algo que realmente pague as contas, etc). A questão é de prioridades, também, pois nem todo artist pode ou vai dar prioridade para um projeto destes. Na balança, pesa sempre o que vai pagar contas ou é mais relevante pro artista.

Usando o exemplo de Terapia mais uma vez: no começo, publicávamos uma página por semana, toda quarta-feira. Essa página era feita na mesma semana e costumava levar um dia de trabalho (do layout à publicação, sem contar o roteiro que já estava pronto). Enquanto eu produzia semanalmente Terapia, eu também dava aulas, fazia freelas e produzia o Dom Casmurro. Terapia não dava dinheiro, mas eu tinha como me dar o luxo de focar um dia nesse projeto. Com o passar do tempo, não só eu como Rob e Marina passamos a ter muitos outros projetos, compromissos e problemas, o que fez com que Terapia virasse quinzenal. Houveram vários atrasos na publicação das páginas, o que me comia por dentro. Mas era o que dava para fazer: nunca paramos de produzir, mas desaceleramos. E n~]ao tinha como um exigir do outro mais foco se aquilo não era a prioridade financeira, e em certos momentos, nem artística. Hoje, estou desenhando o segundo volume de Monstruário, totalmente sem financiamento. Ou seja, faço porque quero, mas principalmente porque é um projeto meu (e do Lucas, claro) no qual acredito muito e pelo qual eu sou um dos responsáveis. Enfim, o nível de dedicação exigido não é compatível com a proposta de pagamento, mesmo considerando que possa gerar lucro com vendas mais pra frente.

No caso, o meu conselho é simples: fazer parceria em projetos de quadrinhos (visto que a maioria não envolve dinheiro garantido e/ou rápido), envolve afinidade, comprometimento e crescimento mútuo. Não é para não fazer. É para, se for fazer, entrar sabendo das condições e com pé no chão.

Esse nível de exigência da proposta pode até mostrar que o autor (e, provavelmente, o projeto inteiro), não são profissionais, e sim a coisa toda é um projeto de início de carreira, uma aposta, um sonho. E não dá pra exigir do parceiro de trabalho prioridade e dedicação total em troca "de nada - ou pouco". E é muito provável que os artistas que se interessem pela proposta tenham, de fato, tempo e vontade de se dedicar, mas é provável também que sejam artistas iniciantes, sem muita vivência (note que isso não tem a ver com a qualidade do trabalho). Veja só, pela proposta, eu imagino que o roteirista não aceitaria fácil um artista novato com trabalho ainda cru; e artistas, profissionais ou não, com um trabalho bem desenvolvido e vivência na área, dificilmente embarcariam num projeto com essa proposta. Temos aí, então, um problema.

Vamos comentar rapidamente o tipo de "venda" desse projeto, proposto pelo autor: Amazon, Social Comics e, quem sabe, editora tradicional". Talvez o autor que fez a proposta não conheça direito o mercado de quadrinhos brasileiro. Talvez conheça muito bem. Eu não faço ideia, não sei quem é a pessoa. Mas deduzo que não conheça bem, pela proposta. Enfim, vendas de e-books na Amazon são muito, muito pequenas. Ainda temos a cultura do impresso muito forte, e muitos leitores preferem pagar mais pelo liro do que menos pelo e-book. Sucessos de vendas em e-books são, invariavelmente, produções de muito apelo popular, e nem sabemos como isso seria no caso da proposta em pauta.

Social Comics é complicado, não sei dizer se tem sido lucrativo para os autores. Para mim, não é muito. Mas é bom ter seu material lá. Segue a mesma lógica da Amazon, misturada ao Netflix. Se for muito, muito lido, rende mais dinheiro. Para ser muito lido, precisa ser muito popular e/ou muito bom, e precisa de usuários na plataforma para ler. Uma vez que os usuários que se interessam pelo seu título já o leram, dificilmente vão ler de novo. Então, se não há qualidade suficiente e aumento constante de leitores na plataforma, não adianta que não vai render muito dinheiro.



E sobre editoras, a conversa é longa, mas resumindo: a editora precisa ter interesse na obra, porque vai produzir um produto que precisa ser vendido. Pra vender, tem que ser popular e muito bom,e quase sempre, feito por autores que já têm uma experiência e um nome mais ou menos formado. Nada garante que seu projeto vai ser interessante o suficiente para uma editora publicar, e se o fizer, vai lidar com tiragens provavelmente muito pequenas, que vendem a longo prazo, e que rendem aos autores cerca de 10% do preço de capa (para dividir entre eles, não para cada um). Ou seja, tem que vender muito, muito mesmo para gerar muito dinheiro. E o ciclo continua.

(Em tempo: eu não sou contra publicar por editoras, mas é preciso conhecer o mercado e como isso funciona para não criar ilusões de um mundo ideal, não compatível com nossa realidade. Gostei muito de trabalhar com a Balão e a Jupati, por exemplo).

Enfim, não quero que esse texto seja totalmente definitivo, e não estou dizendo que os quadrinistas não devem entrar em projetos (como este, principalmente, não deveriam, mas cada um sabe o que faz). O mais importante é não se envolver com armadilhas ou projetos que não te considerem como coautor, e vão usar o que você produz de forma injusta. No final das contas, o que você decidir deve ser bom para você. Na dúvida entre um projeto maluco, com cliente/parceiro exigente demais e sem possibilidade de criar junto, e um projeto pessoal, prefira sempre o segundo.

O post original, com muitos comentários (a maioria criticando a proposta, ainda bem), está no Facebook. Clique aqui pra ir direto lá.

Espero ter sido útil! Apesar disso ser totalmente old school, podem deixar comentários aqui, e agradeço demais se compartilharem esse conteúdo pelas redes com seus amigos, desde que, claro, coloquem os créditos do texto e o link pro post original. Abração procêis.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Entrevista - Zine Múltiplo

Saiu a 18ª edição do zine Múltiplo, editado elo André Carim, que traz uma entrevista bem bacana comigo! Falei de Terapia, Monstruário, minhas influências e carreira em geral. A capa foi feita exclusivamente para eles, e traz nossa querida Lucia, protagonista do Monstruário. Fazia um tempo que eu não desenhava ela!


A capa do zine Múltiplo 18

Agradeço o André pelo convite e pelo espaço. É sempre um prazer falar sobre minha trajetória,e espero que os leitores do Múltiplo curtam e se interessem pelos meus trabalhos. Além disso, sempre, espero que possa ter ajudado de alguma forma a quem tem interesse em trabalhar com quadrinhos, ilustração e afins.

Você pode ler a edição completa online, pelo Scribd, ou baixar a versão digital por lá mesmo.

Além disso, você também pode adquirir a versão impressa pelo Clube de Autores. Acesse aqui!

Para conhecer e acompanhar o zine Múltiplo, é só seguir pelo Blog, neste link.

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Release da publicação:
MÚLTIPLO 18 chegando com uma super entrevista com Mario Cau, a segunda parte da HQ da Agente Laranja e o Caçador do Mal e o Prólogo de Gaia, para Epopeia... e tem muito mais para todos os gostos..

Entrevistado desta edição: Mario Cau (Capa e Contracapa)
Participam da edição: João Carlos Magiero, May SantosEstevão MoraesAlanzim EmmanuelClodoaldo CruzElenilton FreitasEduardo SouzaSerj D'lima PlacidoLeonardo LainoLuiz IorioDécio RamírezJhonas Vieira Art, Mauricio Rosélli Augusto, Julio Shimamoto.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Relembrando o começo - um thread

Oi, pessoal! Hoje escrevi no meu perfil do Twitter (não me segue lá ainda? Ma como!? Clica aqui já!) algumas lembranças dos meus primeiros projetos de trabalhos de Quadrinhos.

Estou trabalhando atualmente em um livro ilustrado que é sequência da HQ desenvolvida com a ASPE lá em 2004, com a personagem Cris. Esse projeto foi publicado pela ASPE e era um material institucional e educativo, sobre epilepsia. Foi uma honra participar, e como em todos meus projetos desde o começo da carreira, levei a sério como o profissional que sempre almejei me tornar.

13 anos depois, retomamos a Cris, e o livro deve sair em setembro. Logo postarei novidades disso. Masm por enquanto, fiquem com a recapitulação (thread) que escrevi hoje:

"Revisitando um antigo projeto de HQ (o meu segundo feito de forma profissional, primeiro publicado, de 2004-5).

Geralmente considero minha "estreia" nas HQs pela minha 1ª publicação, na Front, em 2007. Mas a real é q esse projeto foi o 1º de fato. Era um projeto educativo/institucional, mas feito com muito carinho e dedicação. Meu 1º trabalho de HQ/ilustra pago.

Eu já vinha produzindo as HQs de #Pieces desde 2004 e publicando nos sites da época (DevArt, Fotolog, Orkut). Isso faz com que #Pieces já tenha aí seus 13 anos de idade. As 1ª e 2ª edições impressas, porém, saíram em 2009. A 1ª HQ de Pieces impressa estreou na @CafeEspacial #2, de 2008.

Em 2007, eu "estreava" de verdade, no Brasil, na Front 18 - Ódio, com uma HQ escrita pelo hugo. E nos EUA, na Negative Burn 15. Aliás, a HQ que saiu na Negative Burn 15 foi a mesma que saiu na @CafeEspacial 2, no ano seguinte: Pieces - A Chuva Pieces - A Chuva vc encontra pra ler na reedição digital de Pieces 1, no @SocialComicsBR ;) É uma das minhas favoritas até hoje.

Voltando lá atrás, em 2002-3 eu fiz meu primeiro trabalho profissional de verdade de HQ. Era super-heróis, nacional, super bacana. Desenhei as 20 e poucas páginas, fiz o design do vilão, agentes, laboratórios. Meio que deu o tom de quase todo o universo da história. No final esse projeto morreu por, acredito, falta de adesão e resultados da equipe enorme. Mas foi um baita aprendizado.

Um dia, quem sabe, vou republicar esse material pra vcs verem como era. Tenho uns planos aí pra essas HQs antigonas... ;)

Então, minha 1ª HQ profissionalmente foi em 2002. 1ª publicação HQ freela, 04. 1ª autoral 07. Minhas 1ªs HQs independentes, 09. Então, 15 anos de carreira. 13 da criação de Pieces e produzindo sem parar. 8 anos publicando sem pausa aqui e fora. 6 anos de @TerapiaHQ <3 span="">

Com o tempo, vieram mais publicações solo, parcerias, coletivos, eventos, freelas, editais, aulas, palestras e até uns prêmios bem legais. Nada mal pra um garoto inseguro e quietinho, mas muito sonhador do interior de SP (eu morava em Pedreira até os 18). Tudo isso, obviamente, não seria possível sem o colossal apoio dos meus pais, o networking ao longo dos anos e a paixão louca por HQs.

Apesar da facilidade hoje pra ser autor de HQ, nd importa se vc não amar de coração a linguagem e estiver disposto a lutar por isso. Não se chega a lugar algum sozinho, mto menos sendo babaca. Mergulhe e acredite. É uma jornada e isso importa mais que o destino final. Agora chega de thread/flood. Tem muita coisa pra desenhar (e roupas pra lavar) hoje! Vamooooo!!!"